Eu nunca fui muito boa em pedir ajuda - blog dez2018

EU NUNCA FUI MUITO BOA EM PEDIR AJUDA

Sempre me senti muito mais confortável na posição de quem dá, de quem cuida; de quem salva. Não por acaso escolhi ser psicóloga, nada mais óbvio do que ganhar dinheiro para fazer o que eu já fazia há anos sem cobrar um centavo.

Na infância, eu era a boazinha que ia em socorro de todos os amigos. O que na época me parecia ser o “correto” a se fazer quando alguém era zoado na escola, hoje percebo que sempre foi apenas barganha: eu queria comprar o amor das pessoas. Queria me sentir sendo especial, importante. Hoje percebo como me violentei, inúmeras vezes, em nome de alcançar este pedestal no coração de quem eu amava.

Anos mais tarde, a dinâmica da infância com os amigos era reproduzida em meus relacionamentos amorosos e disso vieram as crises de ansiedade que me levaram ao consultório da psicóloga, que me presenteou com o diagnóstico: codependência emocional. Ou: o vício em ser sempre a salvadora da pátria, aquela que parte em resgate das pessoas pobres-coitadas que são incapazes de cuidarem de si mesmas. Na minha opinião, evidentemente.

No momento em que escrevo esse texto, meu segundo filho, Dante, tem 6 dias de vida. Nasceu em um parto que me ensinou mais sobre mim mesma, sobre minhas sombras e meus medos do que anos e anos dos mais diversos tipos de terapia que eu já fiz. E uma das coisas mais importantes que este parto me trouxe como insight (e que estes 6 primeiros dias de uma nova maternidade estão me trazendo), é sobre a importância de se aprender a reconhecer quando precisamos verdadeiramente de ajuda.

Não vou entrar em detalhes sobre o parto porque pretendo gravar um Podcast muito em breve com o relato do parto de Dante (que se relaciona com o parto de Gael sob inúmeros pontos de vista), mas tenho chegado a algumas conclusões sobre o tema “pedir ajuda” que me senti inspirada a compartilhar aqui no BLOG.

Vamos lá:

1. Sobre pedir ajuda e demonstrar fragilidade:

Você já parou para pensar no quanto sua recusa em pedir ajuda pode estar relacionada ao desejo de receber a admiração e reconhecimento das pessoas pelo fato de ser forte e dar conta das coisas sozinha?

Todos nós somos criados em uma sociedade que celebra a força e a fortaleza em detrimento da dor e da vulnerabilidade. É a sociedade rede-social, na qual importa mais aquilo que você mostra do que aquilo que sente de verdade; o resultado disso é que passamos mais tempo nos preocupando com o que os outros vão pensar de nós do que com a forma como verdadeiramente nos sentimos.

Eu admito que, em diversos momentos da minha vida, me fingi de forte e me esforcei para não demonstrar o quanto eu poderia me beneficiar da ajuda do outro porque sentia que se mostrasse o quanto eu me sentia frágil e necessitada ia “decepcionar” as pessoas que eu amava. Fiz isso inúmeras vezes – e você?

2. Sobre a arrogância que é não pedir ajuda quando se precisa:

Me lembro que, quando estava grávida de Gael e parti para um parto humanizado, recebi o orçamento da equipe médica e um dos profissionais envolvidos era o anestesista. E me lembro de não ter dado a menor importância para quanto seus honorários custariam, porque eu tinha certeza absoluta que não precisaria dele.

Hoje, passados quase 4 anos desta experiência, brinco que o anestesista foi a verdadeira estrela do meu parto – eu e Gael ficamos em segundo plano, porque de repente o anestesista era a única coisa na qual eu era capaz de pensar. Quando cheguei ao hospital, com 9cm de dilatação, todo e qualquer homem que cruzava o meu caminho eu perguntava, “é você o anestesista?” – para o enfermeiro, para o segurança, para o faxineiro.

Lidar com a minha necessidade de anestesia foi uma das coisas mais dolorosas e que até hoje busco curar dentro de mim – e, no parto de Dante, sinto que mais uma pecinha dessa cura chegou. Lá estava eu, com 7cm de dilatação, de quatro dentro do carro indo para o hospital e pedindo conscientemente para que chamassem o anestesista. Para mim, naquele momento, pedir por analgesia estava sendo o maior ato de amor próprio que eu poderia ter naquele momento.

Pedir ajuda na hora certa é prova de que você se ama e se respeita. Estar precisando de ajuda e não pedir é a maior arrogância que existe – é só seu Ego querendo parecer ser mais foda do que é.

3. Pedir ajuda é se reconectar com o Todo:

Faz 6 dias que Dante chegou ao mundo e faz 6 dias que eu peço por ajuda – e estou me deslumbrando como o simples ato de abrir a boca e nomear uma necessidade que existe pode ser uma ponte entre você e o fluxo da vida.

Porque a gente pode não enxergar as coisas desta forma, mas a vida é uma rede de pessoas, coisas e acontecimentos da qual nós fazemos parte. O ser humano só se desenvolveu e evoluiu sobre a face da Terra porque se organizou em pequenos grupos. E viver em grupo significa viver em cooperação – o que eu não faço, o outro faz; do que eu não dou conta, o outro dá.

Abrir mão da participação do outro na nossa vida é, além de arrogância, a garantia de uma vida de desconexão com o Todo. Existe uma frase que diz que “é necessária uma vila para se criar uma criança”- porque se não existisse a cooperação dos grupos, a vida se tornaria simplesmente insustentável. Simplesmente: não seria possível.

Por aqui, eu respiro fundo e mergulho no puerpério – este momento mágico e por vezes sofrido que sucede o nascimento de uma criança – certa de que a vida é abundante e que me trará mais daquilo que eu preciso aprender sobre mim.

E, enquanto isso, me entrego à sabedoria da vida e das mãos estendidas que ela me trouxer.

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    Sobre


    • Yona Zaidan

      Feliz desconexão! You deserve it! <3