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Sobre a ingrata posição de vítima

Sobre a ingrata posição de vítima

Quantas são as vezes em que você se sente absolutamente sem saída, diante de uma situação de sua vida? Como se você estivesse vivendo algo sobre o qual não possui controle nenhum, como se você não pudesse fazer absolutamente nada para que o problema acabasse e a tranquilidade voltasse a reinar em sua vida?

Recebo diariamente muitas pessoas que se sentem assim. Elas me escrevem, me procuram em meu consultório ou em uma sessão de Skype, buscando por maior compreensão a respeito da situação que estão vivendo, sobre as quais sentem não possuir domínio nenhum. Relatam se sentir como se tivessem bolas de ferro segurando seus pés no mesmo lugar – nenhuma capacidade de ação, nenhum movimento.

Sempre que converso com uma pessoa que refere esta percepção de estar “sem saída” uma bandeira vermelha se ergue metaforicamente diante de meus olhos e uma palavrinha me vem à mente: “vitimização”. Como assim uma situação não tem saída? Só tem saída se não tiver entrada, que se não volta-se pela mesma porta por onde entrou. O que existe é a percepção de que não há saída – geralmente quando existe, do mesmo modo, uma percepção de que não temos absolutamente nenhuma responsabilidade sobre o que está acontecendo. Como se fôssemos tristes e abnegadas vítimas, apenas sofrendo as consequências de atos de segundos ou terceiros; nunca as consequências de ações provocadas por nós mesmos.

A vítima nunca tem responsabilidade nenhuma de nada – é como uma folha de uma árvore jogada no chão, que o vento leva para um lado e para o outro, sem possibilidade nenhuma de ação, apenas de reação. A vítima nunca age, ela sempre reage à forma com que o mundo a trata. O pior de ser vítima não é a injustiça de culpar o outro pelos seus problemas; isso é o de menos. O mais injusto de ser vítima é que a pessoa, ao culpar os outros pelas suas adversidades, se coloca em uma posição em que perde a oportunidade de crescer e aprender.

Evidentemente que não é fácil admitir que a responsabilidade por estarmos em uma posição ruim é nossa. Afinal de contas, de certo modo é bem mais fácil falar que o erro está fora e simplesmente chorar as pitangas por aí – as pessoas se solidarizam, te consolam, chamam o mal feitor de desgraçado e você se sente acolhido em sua dor. Mas a verdade é que as pessoas adoram uma tríade vítima-bandido-salvador. Ainda vivemos em uma sociedade cujo paradigma principal é a fantasia de que, algum dia, algo vai vir de fora para resolver nossos problemas. Mas uma mudança já desponta no horizonte, e as pessoas começam a acordar para a realidade de que elas são cocriadoras da própria realidade, de que elas têm a capacidade de inventar o próprio mundo e o Universo no qual querem viver!

Acho que essa dinâmica da vítima, do mocinho e do bandido tem muito a ver com os contos de fadas que lemos na infância. Particularmente nós, mulheres, precisamos nos policiar constantemente para não nos lançarmos à posição das princesas indefesas, que se vêm acorrentadas no alto de masmorras cercadas por dragões malvados, à espera do príncipe que chega montado no cavalo branco para salvar a cena e nos fazer felizes para sempre. O perigo que se corre é que quando se habita a pele da vítima, negando-se completamente o fato de que muitas vezes somos os algozes de nós mesmos, acabamos não enfrentando nossos próprios comportamentos destrutivos. Não percebemos o tanto de besteira que estamos fazendo, pois o dragão é que é malvado, e o príncipe é que tem que nos salvar. Não nos damos conta de que nos aprisionamos em uma dinâmica na qual nós mesmas nos transformamos na bruxa má, a exigir do príncipe que ele nos salve de nossa própria miséria – ele tem a obrigação, eu sou a vítima! E daí, quando o príncipe vira sapo, reclamamos da falta de sorte.

O grande lance de se dar conta do monstro da autovitimização é perceber que, na verdade, se foi você mesmo quem prendeu a bola de ferro que te atrasa a felicidade em seus próprios pés… É você quem tem a chave para abrir os cadeados.

Nunca se esqueça: às vezes temos de ser nossos próprios super-heróis.

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