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BLOG ♡ Tudo está sempre certo!

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Uma coisa da qual gosto muito é filosofar sobre a raiz semântica das palavras. Já tive grandes insights em minhas reflexões acerca da origem das palavras como, por exemplo, quando me dei conta de que era bastante coincidência que o presente se chamasse presente – não há nada mais grandioso e libertador do que ter, a cada manhã, um novo dia para agir e transformar sua vida naquilo que você deseja viver e experimentar, um verdadeiro presente! Foi assim também quando parei para pensar no significado da palavra criação – cria ação, o ato de criar uma nova ação… Enfim: me atentar ao significado das palavras já me proporcionou grandes percepções, e explorá-las sempre se mostra útil e oportuno em meus atendimentos e encontros de grupo.

Uma palavra sobre a qual sempre gosto de refletir nos trabalhos que desenvolvo é “desenvolvimento”: des-envolvimento. A palavra desenvolvimento me leva a refletir que para que nos desenvolvamos precisamos nos des-envolver – deixar de estar envolvidos – de qualquer coisa com a qual tenhamos estado envolvidos antes. Para nos desenvolvermos precisamos abandonar coisas, o tempo todo. E, levando em conta minhas atuais percepções e experiências, o que há de mais importante e significativo a ser abandonado é nossa identificação com o Ego, que sempre constrói expectativas com relação a tudo e a todos.

Pelo menos no que se refere à minha experiência e percepção de outras experiências, expectativas frustradas têm sido a principal causa de aborrecimentos e ansiedades nos últimos tempos – de coisas bestas e aparentemente pequenas às mais grandiosas e complexas. Você acha que vai demorar 30 minutos indo de um ponto A ao B e pega um engarrafamento gigante, absolutamente inesperado. Você reúne uma documentação que precisa mas, ao dar entrada na papelada nos órgãos competentes, descobre que existe uma série de pequenos detalhes a serem acertados que não dependem de você – e ao pedir ajuda aos responsáveis a coisa demora o triplo do que demoraria se estivesse dentro da sua capacidade de ação. Você vai fazer um exame de rotina, descobre um nódulo e, de repente, se vê na angústia de ter que esperar 5 dias pelo resultado de uma biópsia. Tudo, absolutamente tudo diferente do que você imaginou e para o que estava preparado e, de repente, nada mais te resta a fazer a não ser respirar e tentar sobreviver às novas contingências. Esta sensação te parece familiar?

De fevereiro deste ano até poucos dias atrás me confrontei com uma sensação que pode ser entendida imaginando-se um mar revolto: eu era acertada em pleno rosto por uma onda, engasgava, me debatia e, quando finalmente conseguia voltar a respirar, nova onda na cara. Imagine aí uma série de 3 ou 4 ondas, uma atrás da outra, e você terá uma metáfora muito clara de como foram meus primeiros meses do ano. O episódio da doação de sangue foi só a primeira onda (se você não sabe do que estou falando assista a este vídeo aqui), depois veio a cirurgia do Ricardo e, por último, um episódio bastante chato com os caseiros que tomavam conta da casa de praia da minha família há 35 anos e que envolveu muita decepção e tristeza. Isso sem contar os episódios menores mas, em todos eles, dois sentimentos sempre presentes: frustração e impotência. “Que ódio, não era para ser assim”, peguei-me repetindo mentalmente. Não era para ser assim? De acordo com qual ponto de vista?

Sim, dele: do Ego. O único capaz de prever o que é bom, julgar o que é ruim e determinar que X deveria estar acontecendo em invés de Y em menos de dois segundos. E a verdade é que a única coisa que o nosso Ego leva em consideração nestas rotulações e julgamentos é o desconforto; toda e qualquer coisa que gerar a mínima necessidade de reajuste ou flexibilidade no que antes era a inércia do comodismo é categorizado pelo Ego como algo que deve ser evitado a todo custo. Então se você programou o seu dia levando em consideração que levaria 30 minutos entre o ponto A e o B e levou uma hora e meia, isso significa que você vai ter que rebolar e modificar a sua rotina e tirar coelhos da cartola pra conseguir dar conta de tudo e isto é RUIM. Claro, a menos que este engarrafamento te impeça de estar em tal esquina em tal horário e ser abordado por tal assaltante, certo? Mas disto nunca saberemos, porque o engarrafamento foi maior e você não estava em tal esquina em tal horário. A única coisa da qual sabemos é “que ódio, não era para ser assim”. Certo? Quem nunca pensou assim que atire a primeira pedra!

O que me leva, novamente, ao cerne da palavra desenvolvimento, e a certeza de que deixarmos de estar envolvidos com o que quer que tenhamos estado envolvidos anteriormente é condição sine qua non para atingirmos estados superiores de paz e serenidade – e este envolvimento, em alguns momentos, vai ser com expectativas e imagens mentais construídas a respeito das coisas. A expectativa é mãe da ilusão e avó da frustração, alguém me disse um dia. E a verdade é que vivemos em um estado constante de ilusão: de que sabemos o que é melhor ou pior em todos os casos e de que estamos no controle das coisas. Na verdade todos nós deveríamos apenas respirar e relaxar no que simplesmente é, porque a realidade é que absolutamente NADA está sob nosso controle!

Sempre que observo a natureza e a naturalidade aprendo grandes lições. E uma imagem que me traz bastante tranquilidade e presença é do rio que possui um fluxo, um volume, uma direção e um ritmo próprio. Quando o rio se encontra com as raízes de uma bela árvore, ele simplesmente se emaranha com ela – se mistura, se permite ser um com aquelas belas raízes. E no momento seguinte em que as raízes não estão mais lá, tendo ficado para trás, o rio simplesmente segue em frente. O rio flui pelo terreno e com ele se torna um: se encontra com uma pedra e tem volume suficiente para passar por sobre ela, ele passa. Se não, não há o que se possa fazer a respeito: ele a contorna. E nós? O quanto somos abertos e flexíveis para fluir com a vida ao invés de querer que ela tenha o formato que cabe apertadinho em nossa zona de conforto?

Espero sinceramente que estas reflexões sirvam para você como serviram para mim – o fato é que no exato instante em que percebi que as expectativas que minha mente estava criando estavam sendo as responsáveis pelas ondas na minha cara, o mar se tranquilizou e o sol voltou a brilhar em sua superfície plana e lisa. Existe uma sabedoria superior que orquestra os fatos da vida com maestria e quanto mais nos resignarmos a este fluxo da vida, mais em harmonia e em conexão com a fonte suprema de tudo o que há estaremos. Pense sobre isso e reflita: do que você anda precisando se des-envolver?

Paz e bem, Namastê!

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