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Tudo está sempre certo? Como assim?

Tudo está sempre certo? Como assim?

P: “Flavia, está tudo certo do jeito como ocorre, ok. Mas e o que dizer de coisas terríveis que acontecem? De crianças que são estupradas por seus pais, ou das guerras que acontecem? Não existem erros nunca? E os vilões, os grandes causadores de mal da sociedade, que matam e roubam, não estão errados? E, de acordo com o que você pensa, como deve ser nossa postura diante destas coisas se elas não estão erradas? Devemos sentar e nos calar? Mãos atadas, é isso mesmo?”

R: Existem tantas particularidades presentes em sua pergunta que já aviso, de antemão, que será uma longa resposta. Qualquer questão a qual nos dediquemos a debater sob o ponto de vista da mente, que vive em uma lógica dual – certo x errado, bom x mau, bonito x feio, etc – pode se tornar extremamente pantanosa e, por isso, é necessário que analisemos separadamente cada elemento de suas afirmações.

Então vamos lá! O primeiro ponto a ser analisado é a afirmação de que está tudo sempre certo, que é uma afirmação que leva em consideração uma lógica superior, acima da que rege nossas mentes físicas. Porque se formos levar em consideração nossa percepção subjetiva, é evidente que não está tudo certo. Como podemos sequer nos aproximar a dizer que está tudo certo pensando em um pai estuprando o filho? Como dizer que está tudo certo quando uma guerra arranca a vida de milhares de inocentes? Como ousar dizer que está tudo certo quando o inimaginável acontece e a dor parece sufocar o peito de dentro para fora? Negar que, em alguns momentos, as coisas parecem estar muito erradas seria a maior imbecilidade. É óbvio que, em alguns momentos, as coisas acontecem e nos fazem ter certeza de que não deveriam estar acontecendo, de que a vida não deveria ser assim. E, ainda assim, está tudo certo. Como assim?

Uma coisa muito importante de levar em consideração é a de que, para mim, existe alguns paradigmas essenciais no modo de compreender o mundo – alguns dogmas, poderia dizer. E o principal deles é o seguinte: não somos seres humanos despertando para uma realidade espiritual, e sim seres espirituais vivendo uma experiência humana. Ponto. É nisso que eu acredito e é extremamente importante que você leve isso em consideração quando lê meus textos, assiste meus vídeos ou acompanha minhas postagens por aí. Eu não vou tentar te provar isso – eu não vou conseguir te provar isso. Ou você concorda comigo e já pensa assim, ou será muito difícil acompanhar o meu trabalho, porque este é um pressuposto do qual eu parto e o qual não faço questão nenhuma de enfiar goela abaixo de quem não pensa como eu. Entendido este ponto, vamos adiante.

Levando em consideração que o que estamos vivendo aqui é uma experiência tridimensional de um ser multidimensional espiritual, fica muito difícil que consigamos compreender, com nossa mente dual e física, o verdadeiro significado de nossas experiências e aprendizados aqui na Terra. Eu acredito firmemente que, ao virmos para este plano, estamos plenamente decididos a ampliar ainda mais a luz que existe dentro de nós através de vivências que nos forneçam experiências “especiais” que proporcionem o aumento desta luz. No aqui e agora estamos mergulhados até a raiz dos cabelos na lógica da terceira dimensão, regida pela dualidade eu x outro e bem estar x sofrimento, mas se caminhamos na direção da Unicidade (eu E outro, bem estar E sofrimento como uma coisa só), deixamos de ser tão apressados assim em categorizar as coisas tão rapidamente em boas ou ruins, bençãos ou desgraças.

Dou um exemplo: certa vez tive um paciente que, em determinado momento de sua vida, morava no sul do país e precisava vir para São Paulo para uma importante reunião de negócios que definiria os rumos de sua vida profissional e de sua companhia para sempre. Na véspera da viagem, ele fez tudo o que podia para garantir que nada saísse errado no dia seguinte: colocou despertadores para tocar, separou chaves e documentos do carro que usaria no dia seguinte para chegar ao aeroporto, combinou com a esposa para que ela levasse os filhos à escola e organizou todos os documentos em sua pasta de trabalho para que, no dia seguinte, tivesse o mínimo de trabalho possível. Mas, ao acordar na manhã da viagem, tudo saiu do planejado: os despertadores (sim, mais de um) não tocaram, os filhos se atrasaram para a escola. Um importante documento simplesmente desapareceu de dentro da pasta e, quando ele finalmente o encontrou, a esposa não conseguia achar as chaves do carro. Tudo estava dando errado e este homem praguejou contra sua “má” sorte. Quando estavam quase chegando ao aeroporto, atrasados mas não o suficiente para que ele perdesse o vôo, um caminhão bateu com tudo na traseira de seu carro, e ele mal pôde acreditar quando viu o motorista completamente bêbado sair da cabine para se desculpar. Parecia uma versão do inferno adaptada para sua vida cotidiana. Sim, ele perdeu o vôo e, pelos próximos 50 minutos, este homem amaldiçoou e praguejou e brigou com o motorista bêbado do caminhão e com a mulher e com os filhos e com todos os que cruzaram seu caminho. Até que, enquanto esperava o guincho chegar para levar seu carro para o mecânico, ele recebeu a notícia de que o avião no qual deveria estar havia acabado de bater no prédio da TAM, em São Paulo – um famoso acidente ocorrido há alguns anos. E aí? Ele teve má sorte? O motorista do caminhão era um cretino? Ou uma série de fatores aparentemente negativos conspiraram para salvar a sua vida?

Como eu disse: não podemos negar que existem sensações boas e ruins. Eu não nego isso. É óbvio que se eu quero pegar um avião e me atraso, fico ansiosa e reclamo. É óbvio que se sou assaltada e fico com uma arma apontada para a minha cabeça enquanto estou deitada na varanda da casa de praia da minha família, sinto raiva e julgo o bandido e quero que justiça seja feita. É evidente que se fico sabendo da violência cometida contra um ser humano – ou animal – eu me revolto e me pergunto porque existe tanta maldade no mundo. Mas esta EU, que faz tudo isso, é a Flavia Melissa – minha identidade atual, estruturada por um Ego que existe apenas no aqui e agora desta vida tridimensional. Eu não sei, a médio e longo prazo, as consequências das coisas ditas “negativas” que acontecem. Eu não sei se uma criança que é estuprada na infância vai crescer, fundar uma ONG e ser responsável por salvar centenas de vidas de outras crianças que, como ela, sofreram maus tratos. Eu não sei se o assalto que me deixou um galo na cabeça, de tanto que a arma era pressionada contra o meu crânio, não me salvou de um acidente fatal caso eu tivesse saído de casa naquela noite. E eu não sei o que o meu espírito e o seu espírito vieram ter como lição engrandecedora nesta vida, só sei de uma coisa: se aprender a perdoar é algo especial e faz com que minha luz eterna e infinita aumente, isso faz de meu malfeitor um grande professor. É só disso que eu sei.

Não estou dizendo que as leis não devam ser cumpridas – para que vivamos em sociedade elas são necessárias e é muito importante que se façam ser cumpridas. Mas a lei dos homens está certa? Não sei. Está certo julgar o comportamento de alguém como se eu não fosse corresponsável por ele existir? Você acha que não tem absolutamente nada a ver com o fato de existirem criminosos no planeta Terra? Saiba que esta é só mais uma das manifestações de sua mente tridimensional física, regida por conceitos duais eu x outro, que enxerga apenas a segregação e a compartimentalização das coisas. Como disse alguém sábio de quem me esqueci o nome, “não é sinal de saúde estar adaptado a uma sociedade profundamente doente”. E a verdade é que energeticamente falando, nós como espécie vibramos coletivamente esta energia que faz com que criminosos e miseráveis existam, que faz com que sociedades sejam o palco principal a propiciar o surgimento de guerras e conflitos e que proporciona que pais amem seus filhos de modos deturpados e doentios. Todos nós somos responsáveis por isso, pois todos nós somos espíritos que estamos aqui para aprender – e estamos, cada um de nós, em fases diferentes do processo.

Você me pergunta qual deveria ser nossa postura diante destas coisas, e eu te digo: sigamos as leis, mas com amor e compreensão ao próximo. A única diferença entre você e um criminoso é que você teve uma vida que fez de você uma pessoa capaz de sublimar, reprimir e não dar vazão a seus instintos agressivos e assassinos – porque se você me disser que não sente raiva assassina vez ou outra, eu não vou acreditar. A escuridão que existe lá fora no mundo é apenas um reflexo de nossa escuridão interna – trabalhemos do lado de dentro. Olhemos mais para dentro e menos para fora. Mudemos nosso interior praticando o bem, a caridade, o perdão e a compreensão, servindo de exemplo para os demais e sendo, de verdade, a mudança que desejamos ver no mundo. Façamos isso, e eu prometo que nossa luz se expandirá e mais dia menos dia alcançará outras pessoas, inevitavelmente.

Nós somos todos um e estamos todos no mesmo barco, vivendo o mesmo processo. E o processo é exatamente este: aprender. O jogo é apenas um: amar ao próximo como a ti mesmo. E levando em consideração estes paradigmas… Sim, está tudo certo. Sempre esteve, e sempre estará. Que não nos apressemos tanto em dizer que isso deveria ter sido assim ou que tal coisa não poderia ter sido assado. Relaxemos no processo: amém.

Namastê.

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