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Fui traída várias vezes: como deixar o passado para trás?

Fui traída várias vezes: como deixar o passado para trás?

P: “Já fui traída várias vezes, e não consigo lidar com isso. Coloquei toda a culpa em mim mesma e isso me fez perder totalmente o amor próprio. Não acredito mais ser digna de ser amada, e não consigo parar de sofrer com o sentimento de ser enganada e de me sentir tão rebaixada. Fico o tempo todo me perguntando “onde foi que eu errei pra merecer passar por isso?”, mas sei que não é essa a pergunta certa. Quero muito recuperar o amor próprio e a auto-confiança, e deixar o passado pra trás. O que fazer?”

R: Sentir-se vítima de uma traição é, realmente, uma das piores sensações possíveis de serem experimentadas – falo por experiência própria. Não conheço uma única pessoa no mundo que tenha passado por uma situação desta e que tenha saído dela completamente ilesa, sem nenhum tipo de entrave e bloqueio. E todas elas – repito, em garrafais: TODAS ELAS – experimentaram, em algum momento, este mesmo tipo de “autoflagelo” mental: “onde foi que errei para merecer isso?”

Então, em primeiro lugar, vamos desmistificar esta história de que o responsável pela traição é o traído. Esta ideia é absurda e injusta; a decisão da traição foi da outra pessoa, não sua. O ato da traição foi da outra pessoa, não seu. Em que mundo a responsabilidade por esta traição poderia ser sua? Não é. A responsabilidade pela traição é de quem trai, e ponto final. E isso independentemente do quão horrorosa e terrível e maldosa e pessoa péssima que você seja! Você até pode ser tudo isso e, ainda assim, a escolha pela traição foi da outra pessoa, não sua. Será que trair era a única opção existente para seu ex-parceiro? Ele não poderia ter feito mais nada, além de trair você? Você apontou uma arma para a cabeça dele, obrigando-o a te trair? Alguma outra pessoa apontou uma arma para a cabeça dele, ou o ameaçou de morte de alguma outra forma e a única forma de sobreviver foi te traindo? Porque a questão é a seguinte: se ninguém o obrigou a te trair, a responsabilidade pela traição é dele e de mais ninguém. Ok?

Isso dito, sigamos adiante. Ler sua pergunta me lembrou uma frase que usamos muito para explicar o mecanismo da projeção: “Eu não sei por que você está me rejeitando, mas sei o porquê de estar sendo rejeitada”. Não importa o que aconteça do lado de lá do Universo, nós sempre vamos atribuir o nosso entendimento do que está acontecendo, sendo este, inclusive, um modo de compreender o mundo vindo da física quântica: o observador influencia no fenômeno observado. A traição aconteceu porque aconteceu, o seu ex te traiu porque te traiu, nada disso interessa e, talvez, você nunca vá ser plenamente capaz de entender o que de fato houve do lado de lá do assunto. Mas o que verdadeiramente importa é o seguinte: por que é que você acha que é culpada por ter sido traída? Qual a culpa no cartório que você pensa que tem?

O que tenho a te sugerir é: olhe-se firmemente no espelho e admita para si mesma todas as “culpas” que você acha que teve para que isso acontecesse. Talvez você tenha alguma percepção de que poderia ou deveria ter agido diferente em algum momento. Talvez você pense que pecou, em alguns momentos, pelo excesso ou pela falta de determinadas atitudes. Eu te aconselho: examine suas “culpas” por não ser supostamente merecedora do amor e da fidelidade de seu ex-parceiro e, se tiver dificuldade nesta tarefa, busque auxílio de um terapeuta, guia ou pessoa que te conduza em um processo de autoconhecimento, para que você aprenda a perdoar a si mesma por todas estas culpas que você sente que tem. Nem sempre é fácil se enxergar com este grau de “crueza”. Talvez seja muito difícil conseguir se analisar neste nível de sinceridade e honestidade: mesmo assim, persista.

Talvez você chegue realmente à conclusão de que deveria ter agido de uma forma diferente do que agiu em alguns momentos. E, se isso acontecer, primeiramente perdoe-se por não ter agido assim. Todos fazem o melhor que podem, a cada momento de suas vidas. Você não poderia ter agido de modo diferente do que agiu, porque na época não enxergava as coisas como enxerga agora e, por isso, fez o melhor que poderia ter feito, com a consciência e as ferramentas das quais dispunha na época. O autoperdão é o primeiro passo para conseguir se desvincular de todo este blablabla mental de que você não é merecedora, de que não é capaz, de que não é boa o suficiente.

Em segundo lugar, guarde bem uma frase: esqueça o passado, mas guarde o aprendizado. Não o falso aprendizado de que “não vale a pena se relacionar, todos os homens são uns cretinos, nunca mais vou amar ninguém pra não sofrer de novo”, que isso tudo é bobagem criada pela mente para te livrar do sofrimento. Tudo isso é generalização besta. O que quero dizer sobre guardar o aprendizado é: o que quer que seja que você enxergue do passado com relação às suas atitudes e posturas que, analisadas HOJE, você julga que deveria ter feito diferente… Da próxima vez, FAÇA. Tudo aquilo que você pensar em termos de “deveria”, “poderia” ou “teria que”, utilize como aprendizado em uma próxima oportunidade e simplesmente aja diferente. Qualquer coisa, além disso, é tortura mental desnecessária. Sim, deixe o passado para trás, mas traga com você todos os aprendizados possíveis!

Por último, te convido a refletir comigo sobre esta situação em termos sob os quais talvez você nunca tenha refletido antes e que, em um primeiro momento, podem parecer absurdos. Não importa o quanto te parece absurdo, te convido a refletir: não te parece absolutamente arrogante e prepotente que a culpa ou responsabilidade do relacionamento não ter dado certo seja inteiramente sua? Quero dizer, o outro não conta em nada no processo? E se vocês tivessem dado certo, a responsabilidade pelo relacionamento bem-sucedido também teria sido só sua? Em que planeta um relacionamento dá certo ou errado apenas em função de UM dos envolvidos? Em que planeta um relacionamento não é feito de 50% de participação de cada um dos envolvidos?

Nós somos responsáveis apenas por nossas vidas e por nossas atitudes, por mais nada. Não importa o que uma outra pessoa faça, atitudes alheias são de responsabilidade alheia. Qualquer tipo de distorção desta lógica representa distorção da realidade em si. Reflita sobre isso!

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