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Como jogar luz sobre minha sombra e acolhê-la?

Como jogar luz sobre minha sombra e acolhê-la?

P: Você fala sempre em acolher as minhas sombras, jogar luz sobre elas… Acho tão lindo, fico imaginando que são meus “defeitos”, meus “delitos”, minhas escolhas “erradas” e até procuro em mim tudo isso para que possa re conhecê-los, mas, acho que não entendo muito bem como posso fazer isso… Sinto que deveria amar esse meu lado que não gosto e aceitá-lo? Simplesmente deixar ser? Se for assim, o que fazer com a pessoa que eu quero ser? Como faço para jogar luz em minha sombra?”

R: Esta é uma pergunta muito comum de ser feita, e acho que é comum justamente porque somos tão bem-ensinados a lutar contra aquilo que nos ensinaram ser nossos “defeitos” que a simples ideia de acolhê-los nos parece ser algo de outro mundo, muito complexo. Acredite em mim: é muito simples. Tão simples que, quando você se dedica a fazer isso, até parece que não está fazendo nada.

Jogar luz sobre a sombra não é nada além de conhecê-la. A sombra só é sombra porque não está na luz, porque a partir do momento em que se acende uma luz em um porão escuro ele simplesmente se ilumina e tudo aquilo que estava escondido dentro dele é revelado. Jogar luz sobre a sua sombra é simplesmente se dar conta de que ela existe, reconhecer tudo aquilo que você sempre quis esconder sobre si mesma, todas aquelas partes suas que você sempre se esforçou para não ser. Sabe aquela versão de si mesma que você preferia não ser? Esta é sua sombra. É tudo aquilo que você vem negando sobre si mesma ao longo dos anos. Para conseguir compreender exatamente o que é a sombra, assista a este documentário aqui.

Acolher a sombra pode ser algo mais complicado do que jogar luz sobre ela, porque implica em uma mudança de comportamento e atitude que pode ser bastante trabalhosa: pare de se dividir entre a pessoa que você quer ser e a pessoa que você é e não queria ser. Simplesmente pare e aceite absolutamente tudo sobre você – tudo isso que você colocou entre aspas: “defeitos”, “delitos”, “coisas erradas”. Aceite e abra espaço para estas novas percepções a respeito de você mesma. Repita, mentalmente, como um mantra: “isto também sou eu”.

Pare de olhar para si mesma, e para o mundo, com estes olhos julgamentosos do que é certo e do que é errado. Tudo está sempre certo. Nada teria como ser diferente do que é, caso contrário, seria. Tudo, absolutamente tudo o que todas as pessoas do mundo fazem é o melhor que conseguem fazer, levando em consideração o nível de consciência e as ferramentas que possuem, naquele momento. Todo mundo está fazendo o seu melhor. E este é o grande ganho de consciência, a grande pedra filosofal capaz de transmutar o chumbo em ouro dentro de nós: você não tem defeitos. Você é o ser humano perfeito. Não é você que é defeituosa; defeituosa é a forma como você vem enxergando a si mesma e ao mundo, há mais tempo do que pode se lembrar. Porque lá atrás, quando você era pequenininha, alguém te ensinou que algo em você não era bom o suficiente para conquistar o amor das outras pessoas e, como o medo de qualquer ser humano é não receber o amor e reconhecimento dos demais, você vem reproduzindo esta “cisão”, ocultando aspectos de si mesma que aprendeu a julgar inadequados. Acolher a sombra é perceber que não existem aspectos inadequados. Todos os seus aspectos são adequados – o que não significa que você não pode querer evoluir, se desenvolver, ser mais feliz. Você tem todo o direito de querer se aprimorar, mas preste bem atenção a algo que vou te dizer: não existe nada em você que você precise melhorar.

“Mas como assim não há nada em mim que eu precise melhorar?”, você pode me perguntar. “Eu sou invejosa, ciumenta, insegura e não gostaria de ser assim. É óbvio que existem coisas que precisam ser melhoradas em mim”. E eu vou te dizer: eu concordo com você que não é agradável sentir ciúmes, inveja ou insegurança – estes não são sentimentos agradáveis de serem experimentados, porque são sentimentos que nos afastam daquilo que verdadeiramente somos, que é pura luz. Por isso não gostamos de nos sentir invejosos, ciumentos ou inseguros, porque algo em nós “grita” que algo não está sendo como deveria ser quando nos sentimos assim. Mas o que fazemos diante da constatação de que nos sentimos desta forma? Tentamos não ser o que já estamos sendo. Direcionamos toda a nossa energia para a nossa mente e começamos a argumentar conosco mesmos, de que não existem motivos para que sejamos assim. E, a partir do momento em que a mente se mete no processo, a batalha está perdida. Porque o papel da mente é analisar todos os ângulos da situação e, inevitavelmente, ela vai transitar entre te mostrar que não existem motivos para sentir ciúmes e que existem motivos para sentir ciúmes. E você vai ficar indo e vindo, em um diálogo mental incessante, tendo uma energia enorme absorvida no processo de tentar lutar contra um sentimento que você já está sentindo!

O que tenho a te propor é: da próxima vez em que sentir ciúmes, apenas sinta o ciúmes. Apenas permita-se ser ciumenta. Apenas abra um espaço, no seu coração e na sua vida naquele momento, para que você sinta o que já está sentindo enquanto repete: “esta também sou eu”. Perceba a dor que vem desta constatação, chore se for o caso, grite, esmurre o travesseiro. E vá observando como, lentamente, o sentimento parece ir se “gastando”. É como se, ao parar de brigar com a dor, ela aceitasse ir diminuindo, até sumir. Perceba como a constatação do seu ciúme faz com que ele diminua, porque uma parte sua compreende que este sentimento pouco tem a ver com o que o outro faz, e muito com a forma como você percebe o outro e as situações que te acontecem. E quanto mais espaço você abrir dentro de você para acolher sua parte ciumenta, quanto menos você brigar com o fato de ser assim, quanto menos você alimentar esta batalha dentro da sua mente… Menos o ciúme se manifestará loucamente e sem controle. Acredite em mim.

Ser ciumenta, ou insegura, ou raivosa, ou amedrontada, ou qualquer coisa que você julgue como um “defeito” não é certo e nem errado. Não é qualidade e nem defeito. É o que é, qualidade e defeito são apenas filtros. Você é o que é, as pessoas são como são, a vida é como é – o que não significa que você não possa escolher ser diferente. Mas preste bem atenção no que acabei de escrever: eu disse “escolher ser diferente”. Não é uma questão de necessidade, ou de dever. É uma questão de escolha, e a escolha sempre fica em segundo plano quando colocamos as coisas como defeitos, como erros ou delitos. É como se não tivéssemos escolha a não ser lutar contra o que somos.

E enquanto continuarmos lutando contra nós mesmos, sempre estaremos perdendo.
De um jeito ou de outro.

Namastê.

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