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Eu sempre soube que meu caminho seria especial.

Tenho a percepção de que não fui uma criança comum. Talvez nenhuma criança seja comum e, talvez, todos tenham a percepção de terem sido diferentes, mas dentro do mim sempre esteve presente um sentimento de não pertencimento. De inadequação, falta de espaço. Lembro-me de, ainda muito pequena, ter conversas com meu pai, na varanda da casa de praia, recheadas de lágrimas por não conseguir entender o porquê de, um dia, morrermos, virarmos estrelas e, ao nascer novamente, não nos lembrarmos uns dos outros. Eu não achava justo que, um dia, me esquecesse de quem eu havia sido. Eu não queria me esquecer, era importante que, desta vez, eu me lembrasse de quem eu era.

Na adolescência a sensação de falta de habitat foi ainda maior. Eu estudava em uma escola ótima, tinha amigos queridos e me sentia bem na maior parte do tempo, mas em alguns momentos era assolada por questionamentos a respeito da vida. O que mais existia, além de nossos corpos? Eu me sentia absolutamente fora de contexto, e a sensação apenas aumentava quando eu tinha coragem de compartilhar minhas reflexões com meus amigos. “Por que está pensando nisso?”, eles me perguntavam. Eu também me perguntava; só queria me sentir normal.

Muitos anos se passaram e uma parte de mim foi adormecendo para tudo isso. Eu me distraí com o mundo, com os namorados, viagens e, eventualmente, com as drogas. Eu me sentia bem, a não ser quando não me sentia. Achava que, na verdade, era normal não se sentir bem – acho que é o que todos achamos, em alguns momentos da vida. Depois de ter estudado Psicologia, sabia que existia um vazio constitucional que jamais seria preenchido. Afinal, segundo Freud, o mal-estar nas civilizações era palpável. Estava tudo bem – estava tudo certo. Eu não precisava me preocupar tanto.

Mas, em alguns momentos, uma voz cochichava ao meu ouvido dizendo que eu estava vivendo uma grande farsa. Nada daquilo era real, apenas o sofrimento era real. Buda parecia concordar comigo e ainda acrescentava: o desejo era a causa de todo o sofrimento. A única forma de cessar o sofrimento era o extermínio do desejo através do nobre caminho óctuplo: entendimento correto, pensamento correto, linguagem correta, ação correta, modo de vida correto, esforço correto, atenção plena correta e concentração correta. Diante de tantas coisas corretas, eu não podia me sentir mais errada: eu era entupida de desejos e tinha plena consciência de que minhas ações não confirmavam aquilo no que eu dizia acreditar. Eu estava toda torta. Em alguns momentos a verdade me esbofeteava: não conseguia mais me enganar e nada estava bem. Nada fazia sentido. Eu não gostava da minha vida. Eu precisava de algo mais – e não fazia a menor ideia do que era. Sabia que estava longe, muito longe. E sabia que, para encontrá-lo, eu precisava me abandonar. Abrir mão de absolutamente tudo.

Vendi meu carro, fechei minha clínica e me mudei, de mala e cuia, para a China, onde me entreguei ao estudo da Medicina Chinesa por inteiro. Conheci práticas energéticas sobre as quais eu nunca havia ouvido falar. Conheci a meditação e entendi, pela primeira vez na minha vida, que eu não era meus pensamentos: algo em mim pensava, algo em mim respirava, algo em mim circulava sangue pelo corpo. Mas eu, EU, era muito mais do que isso. Eu era maior. Eu tinha o tamanho exato dos meus sonhos.

A volta para o Brasil não teve nada de mágica: eu estava sem dinheiro, sem carro, sem trabalho e praticamente sem amigos – tirando alguns poucos que restaram, a grande maioria havia sido varrida da minha vida quando perceberam que eu não era mais movida a festas, drogas e rock’n roll. Tentei dar aulas, mas os cursos raramente atingiam o número mínimo de participantes. Atendi em SPAs e em clínicas de amigos, mas quando a coisa parecia engatar, algo acontecia e os pacientes desapareciam como em um passe de mágica. Abri um consultório com um amigo que, alguns meses depois, me comunicou que abandonaria o barco. Eu tinha 33 anos, minha mãe me sustentava financeiramente e eu simplesmente não acreditava que, um dia, seria capaz de fazê-lo por mim mesma.

Um belo dia simplesmente me entreguei. Desisti de lutar. Se o Universo não conspirava para que eu desse certo na vida, então não ia fazer mais nada, apenas o que me desse na telha. Eu tinha tempo demais, trabalho de menos e estava tomando um monte de tapas na cara da vida, e resolvi compartilhar minha jornada com outras pessoas. Comecei a gravar vídeos, atividade que se transformou em uma verdadeira necessidade. Eu acordava pela manhã e, na pura falta do que fazer, ligava a câmera e falava o que vinha na minha cabeça. Eu não tinha a menor pretensão de que outras pessoas começassem a assistir aos vídeos: eu falava o que eu achava que tinha de ouvir de mim mesma. E, um dia, as pessoas começaram a assistir. E começaram a compartilhar. E mais pessoas começaram a assistir, e a chegar até mim por conta dos vídeos. De repente eu estava atendendo pessoas que compartilhavam de minhas ideias e que queriam saber minha opinião a respeito de suas vidas. De repente eu havia criado um sentido – de repente EU havia ganhado sentido.

A busca continuou e se tornou, cada vez mais, inesgotável. Técnicas diferentes de meditação, técnicas diferentes de respiração, respiração consciente, rebirth! E, em uma vivência de rebirth, minha missão: ajudar as pessoas em seu processo de despertar para a realidade espiritual que nos cerca. Espiritualidade deixou de estar vinculada à religiosidade, e a busca que existia há anos e que já me fizera percorrer templos, centros, igrejas e terreiros finalmente acabou: Deus habitava o meu interior. Eu havia buscado conhecimento e, quando dei por mim, estava tendo a EXPERIÊNCIA do que era ser Deus, do que era criar a minha própria realidade, do que era inventar a minha vida.

E, mais do que isso: eu começara a inspirar outras pessoas. Pessoas que eu não conhecia pessoalmente, pessoas ao redor do mundo, que começaram a me escrever dizendo, “estou seguindo seus ensinamentos e estou mudando a minha vida!”. Meus ensinamentos? Para mim é estranho ler ou ouvir isso, pois não tenho para mim que os ensinamentos sejam meus; mas minhas ações, finalmente, confirmam minhas palavras, ou grande parte delas. E me permito ser fonte de luz e amor para o mundo.

Há algum tempo tive um realinhamento de minha missão, e cinco palavrinhas foram adicionadas ao resto da frase: ajudar O MAIOR NÚMERO DE PESSOAS POSSÍVEL em seu processo de despertar para a realidade espiritual que nos cerca. Missão realinhada, intenções realinhadas: teve início o Projeto Vagalume, apelido que dei a este movimento de estabelecer parcerias, promover retiros e encontros de grupos, me dedicar menos aos atendimentos individuais e mais às vivências coletivas. Acredito que o coletivo tenha uma força que é muito mais do que a simples soma de seus indivíduos. O grupo toma corpo e se transforma em um indivíduo que dá suporte, inspiração e força a cada um de seus membros.

Autenticidade e espontaneidade são minhas ferramentas para ajudar você na compreensão de que está absolutamente tudo ok em você ser como é. Você já é bom o suficiente. Não há nada de errado, ou de estragado com você. Você é Deus, experimentando a si mesmo – e, como sem contrastes não há experiências, é natural que em alguns momentos você experimente a escuridão. De que outra forma poderia escolher a luz? De que outra forma poderia escolher ser feliz caso, em algum momento, não estivesse em meio à tristeza? Está tudo bem ser quem você é, mesmo que o lugar onde você está agora seja escuro. Não resista à escuridão – não resista à sua própria sombra. Parafraseando Deepak Chopra, “o único lugar onde não existe sombra é em meio à mais profunda escuridão”.

Iluminação, para mim, é um desabrochar. Uma flor que permite que suas pétalas se abram e que seu interior se revele ao mundo externo. É ter a coragem de romper todas as barreiras e resistências que você mesmo se impôs, ao longo da vida, para ser alguém supostamente mais digno de merecer o amor e o reconhecimento das outras pessoas. Não ter o amor dos outros: este é o maior medo de todos os seres humanos – até quando você vai se deixar guiar pelo seu medo? Até quando vai ser uma flor com duas ou três pétalas abertas apenas, enquanto todas as outras se mantém fechadas, assustadas demais para lutar contra a gravidade, por medo ou receio de não serem boas o suficiente para serem valorizadas pelas outras pessoas?

Como esperamos que o Universo seja abundante para conosco quando nós não somos abundantes de nós mesmos para com o mundo que nos cerca? Quando você se reprime, oculta uma parte sua ou não se revela totalmente por medo de não ser aceito, você não está sendo abundante de si mesmo – você está se economizando. Você não está sendo totalmente você mesmo, você está sendo 50% verdadeiro, e espera que o Universo seja abundante, que seja 100% com você? Não vai ser. Se você está plantando uma semente de 50% de abundância, o fruto a ser colhido será um de 50% de abundância. Não há como ser diferente.

Eu te deixo, aqui, um convite e meu incentivo para ser a pessoa mais incrível do Universo inteiro: você mesmo. Você tem que ser você mesmo – e não apenas porque esta é sua única alternativa, mas porque ninguém é tão incrível em ser você mesmo quanto você. Você é muito importante para o Universo, ele não estaria completo sem você. Tudo seria diferente se você não existisse, não duvide da Cria-Ação: se a energia que se condensa formando o seu corpo tivesse uma finalidade lógica mais óbvia do que ser você, seria. Você está aqui e esta é a realidade. Você pode ser você ou continuar fingindo que está satisfeito com estes 50% de você que você vem mostrando ao mundo. Amor ou medo? A escolha é sua.

Eu sempre soube que meu caminho seria especial. O que não sabia é que todos os outros também eram. E se você começa a entender o que eu digo e a, talvez e apenas talvez, concordar com este modo de enxergar a si mesmo e ao mundo que te cerca, eu te convido ao meu Universo. Seja muito bem-vindo.

Brilhemos!