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BLOG ♡ Sobre a confiança e o confiar

BLOG ♡ Sobre a confiança e o confiar

Uma vez estava em uma aula no curso de Filosofia Taoísta quando o Sacerdote nos chamou a atenção para um fato muito simples: passarinho não carrega ninho nas costas. Na hora em que ele proferiu estas palavras eu fiquei meio besta, sem saber o que pensar, porque era óbvio que passarinho não carregava ninho nas costas. Mas eu nunca havia parado para pensar nisso: passarinho não carrega ninho nas costas. E não carrega ninho nas costas pelo simples fato de não precisar; logo depois de utilizar o ninho que confeccionou ele simplesmente o abandona, certo de que, quando precisar de um novo ninho, ele simplesmente o construirá. Parecia que eu tinha removido um véu que sempre estivera cobrindo os meus olhos. Caramba, passarinho não carrega ninho nas costas! Você consegue enxergar a sabedoria contida nesta simples observação?

Eu sempre fui de carregar ninho nas costas. Sempre fui de estar conectada com os “e se” da vida: “E se isso acontecer?”, pensava eu, colocando mais um ninho nas costas; “Mas e se aquilo não der certo?”, e lá estava eu, adicionando mais um. Durante anos da minha vida simplesmente segui assim, encurvando as costas para que coubesse mais um ninho, mais uma aparente proteção contra um perigo que, eu sentia, mais cedo ou mais tarde se manifestaria na minha experiência de vida. E não percebia que estava, na verdade, sendo impedida de voar. Será que um passarinho conseguiria voar de forma tão harmoniosa se carregasse ninho nas costas? Duvido muito.

O passarinho não carrega ninho nas costas porque o passarinho confia no Universo quanto em si mesmo. Ele confia no Universo, na Natureza, de que sempre haverá recursos e matéria-prima para que ele construa um novo ninho, caso haja a necessidade. E confia em si mesmo, em sua própria capacidade de construí-lo, diante de uma nova necessidade. E, no momento em que não precisa mais do ninho, o passarinho simplesmente alça voo e segue sua vida, livre e leve, alcançando os céus e beijando as nuvens. Não é bonito isso? Toda esta confiança?

Evidentemente, esta é uma forma totalmente humana de explicar a coisa. O passarinho não sabe que o sentimento que o impulsiona sempre em frente abandonando o ninho para trás se chama confiança, o passarinho não está pensando no Universo ou na Natureza e muito menos questiona a própria capacidade de construir um ninho. O passarinho simplesmente vive. Ele simplesmente voa. Ele simplesmente se arremessa ao ar e bate asas. Ele, simplesmente, existe. Eu duvido que um passarinho fique se questionando se ele é merecedor do ninho, ou da passarinha, ou do voo, ou de estar vivo. Pensando assim chega até mesmo a ser ridícula a ideia de ser merecedor de alguma coisa, porque voar é de sua natureza e se reproduzir fazendo novos passarinhos também. E se ele não tivesse que fazer ninhos ele não encontraria nem os materiais necessários e nem conseguiria confeccioná-lo. Oras, se ele não tivesse que apenas se entregar a desempenhar a sua natureza “passarinhesca” ele simplesmente não seria um passarinho, certo? E, com a gente, é tão difícil…

A grande verdade é que “confiança” e “confiar” são duas palavras absolutamente antagônicas em alguns momentos. É muito mais fácil dizermos que confiamos em Deus quando estamos em dia com o nosso plano de saúde. É fácil pensarmos que confiamos no Universo quando pagamos o seguro do carro. E eu não estou aqui dizendo que tenho a resposta mágica para todas estas questões, porque eu pago o plano de saúde e pagaria o seguro do carro, se tivesse um. Estou apenas apontando o tamanho da incongruência humana que nos habita e faz parte da natureza de todos nós.

Porque a verdade é que se fôssemos um passarinho, seríamos uma maritaca que fica o tempo todo pensando em voz alta se ela deve ficar com tal maritaco ou se de repente vai aparecer outro melhor, se ela deve botar os ovos agora ou na semana que vem, se ela merece um ninho tão grande e gostoso e se não seria melhor encontrar um lugar para viver de modo fixo, mesmo que isso representasse voar menos, apenas para ficar vigiando todos os ninhos que construiu na vida por que “vai que” ela precisa de um e “vai que” não encontra os galhinhos necessários e “vai que” o maritaco a abandona sem ninho e “vai que” ela não consegue construir um ninho sozinha e “vai que” enquanto ela voa em busca de raminhos outra maritaca passa e rouba seu ninho. E, de repente, a imagem que me vem à mente é a de um passarinho usando um óculos de Woody Allen em sua fase de “Contos de Nova York”, época em que começou a fazer análise e se tornou um defensor feroz do uso de Prozac em busca da felicidade!

Me lembro perfeitamente do dia em que fiz uma constatação gigantesca sobre o perdão servir para nós mesmos, antes de servir para a pessoa a quem estamos perdoando. Durante anos pensei no perdão como algo pelo qual o outro deveria batalhar muito para ser merecedor, afinal ele havia me magoado e me ferido. Então, que enfrentasse o purgatório para que eu, do alto da minha arrogância dissesse: “eu te perdoo”. E isso depois de muitas vezes ter negado antes, viu? E ter me feito de vítima e ter esfregado na cara do outro o quanto eu havia sofrido por sua causa. E hoje vejo o quanto tudo isso é uma grandecíssima bobagem. O perdão não deve ser dado porque o outro merece, e sim porque você merece deixar de sofrer. Porque perdoar é abrir mão do sofrimento, é tirar uma mochilinha de pedras das costas. Perdoar é bom porque quem perdoa vive mais e melhor. Perdoar não tem nada a ver com o outro.

Assim como confiar também não tem. Confiar não tem nada a ver com as contingências externas, confiar tem a ver com um estado interno de capacidade – independentemente do que houver, eu confio em minha capacidade de lidar com a situação. Independentemente do que acontecer, eu confio que serei capaz de dar conta do recado. Independentemente do que vier de fora, confio em minha capacidade de suportar. Confiar é bom porque a gente relaxa o abdome ao invés de estar sempre contraindo-o, à espera de uma porrada na boca do estômago. Não é o outro que tem que ser merecedor de nossa confiança: nós é que somos merecedores da dádiva que é confiar.

Afinal, quando o passarinho pousa em um galho de árvore, ele não o faz confiando que a árvore vai aguentar seu peso e que o galho não vai quebrar. Ele pousa confiando em suas próprias asas, caso elas sejam necessárias.

Pense nisso!
Boa vida, Namastê.

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