Sobre caminhoneiros mocinhos e bandidos - refletindo sobre codependencia

SOBRE CAMINHONEIROS, MOCINHOS E BANDIDOS: REFLETINDO SOBRE CODEPENDÊNCIA

Desde que a greve dos caminhoneiros começou, há pouco mais de duas semanas, eu vinha sentindo vontade de falar sobre as reflexões que o episódio me trouxe. Alguma coisa me barrava, e não demorei a entender o porquê: MEDO. Medo do que minhas palavras poderiam trazer como consequência, porque a verdade é que eu entendo bem menos de política do que gostaria e, quase nunca, minhas opiniões são baseadas em alguma coisa além de um feeling.

Um impulso interno, talvez adquirido ao longo de quase duas décadas de formada em psicologia, que me diz quando alguma coisa está certa e quando algo não vai bem. Eu não acredito que seja intuição, sexto sentido ou algo do gênero. Acredito mais que seja treinamento. Anos e anos observando pessoas, seus discursos e os frutos colhidos através de suas ações. Acho que, com o tempo, acabei desenvolvendo uma escuta “sensorial” do que me dizem: sinto na minha barriga o quanto daquilo vai evoluir na direção que é desejada. Quando olho para trás, vejo que poucas vezes me enganei.

E a verdade é que quando a greve estourou, algo dentro de mim me disse, “YES!”. Era apenas uma sensação, totalmente injustificada. Eu não sabia da pauta dos caminhoneiros, não sabia que tinha alguma coisa a ver com diesel, não sabia que a categoria era tão marginalizada – apesar de saber que a profissão não era respeitada ou valorizada como é em outros países. E nem por um instante, imaginei que o movimento fosse ter o impacto que teve, porque não fazia a menor ideia do quanto o transporte de absolutamente tudo o que abastece as cidades dependia dos caminhoneiros (geografia sempre foi minha pior matéria na escola, e eu quase peguei recuperação justamente por não conseguir decorar a matéria que se referia a sistema de transportes. Confesso).

Mas, paradoxalmente, quando fiquei sabendo que a população – mesmo com gasolina faltando nos postos – estava apoiando o movimento, alguma coisa apertou dentro do meu estômago. Algo não estava certo; se eu mesma havia sentido um “SIM” dentro de mim com a notícia da paralisação, por que estranhar o mesmo “SIM” dentro de outras pessoas?

Foi só começar a acompanhar as postagens e publicações nas redes sociais para entender o porquê. Frases como “já estava na hora de alguém fazer alguma coisa”, “ninguém aguenta mais” e “agora vai” pipocavam na minha timeline – e observando um pouco mais de perto, percebi rapidamente de onde vinha o meu desconforto. Estava tão clara, ali na minha frente, a dinâmica: a tal da Codependência.

Se você nunca me ouviu falar sobre isso, CLIQUE AQUI para assistir a um vídeo e AQUI para conferir uma LIVE que fiz há algum tempo sobre o assunto. Você também pode se aprofundar através da leitura do livro “Codependência Nunca Mais”, de Melody Beattie. E eu sugiro fortemente que o faça, porque eu tenho certeza de que, mesmo sem saber, em algum nível você vem sendo mobilizado por condutas e comportamentos codependentes sem saber.

Resuminho básico para te situar e você continuar acompanhando este texto, caso nunca tenha ouvido falar sobre isso: a Codependência é uma dinâmica de comportamento baseada no estabelecimento de um “tripé”, sobre o qual as relações se articulam. Este tripé é formado por três pilares, cada um marcando uma posição, um personagem e um rótulo: a vítima, o algoz e o salvador da pátria.

O salvador da pátria é uma pessoa altamente orientada e atraída por se relacionar com “vítimas”. Pessoas que sofrem, que estão passando por alguma dificuldade naquele momento – pessoas que, em tese, não teriam condições de cuidar de si mesmas. São pobres-coitados que vivem a vida à mercê do terceiro personagem do drama: o algoz. O bandidão, o FDP da história, ser sem sentimentos e nem escrúpulos, sem a menor sensibilidade ou empatia com o sofrimento da vítima.

A partir do momento em que esta dinâmica é configurada, estão todos presos. O salvador da pátria não consegue se afastar da vítima. Se sente tão obcecado por ela que se descuida de si mesmo e releva suas próprias necessidades a um segundo plano. Nada é mais importante do que ajudar quem está passando por dificuldades. Só que, ao contrário do que se possa imaginar, não existe altruísmo nenhum nesta dinâmica – só projeções. O salvador, na verdade, tem tanta dificuldade em olhar para suas próprias dores e mazelas que projeta a vítima que existe dentro de si nos outros. E, ao invés de enfrentar o malfeitor insensível que também existe dentro de si, o autossabotador que mina suas chances de tornar seus sonhos realidade… Da mesma forma, o projeta sobre a figura do algoz.

O que acontece, então, é uma peça de teatro em que todos encenam personagens. O salvador da pátria cuida da vítima com amor e cuidado até o momento em que a vítima se cansa de ser controlada por outra pessoa e resolve dançar conforme a própria música – e então a revolução acontece. A vítima se transforma no bandido e o salvador da pátria vira a vítima. Ou, como muitas vezes acontece, o salvador é quem se cansa de ser o responsável pela felicidade de outra pessoa e diz, “arrevoir!”. Então ele é que se transforma no bandido. Um pesadelo sem fim, no qual ninguém assume a responsabilidade pela própria vida. Todo mundo está esperando um salvador ou querendo salvar alguém – e ninguém cuida de si mesmo.

Foi exatamente isso que meu estômago me disse, quando vi amigos que têm o costume de ir de carro para a academia, a dois quarteirões de distância, defendendo a greve dos caminhoneiros – apesar de, racionalmente, achar extremamente respeitável pessoas que se levantam e lutam pelos próprios interesses, como os caminhoneiros pareciam estar fazendo. Mas no que eu via nas redes sociais… Parecia existir ali uma baita de uma projeção acontecendo. O “agora vai” era um pedido desesperado de ajuda de alguém aprisionado na posição de vítima, que se vê tão impotente diante do que acontece no país que passa a enxergar a figura do salvador em qualquer um. A “bola da vez” eram os caminhoneiros. Que, tão rápido quanto entraram no papel de super-heróis, viraram os bandidos quando o negócio começou a demorar e seus defensores começaram a passar perrengue de verdade, sem gasolina ou delivery do restaurante preferido.

Veja bem: não ouso defender ou acusar qualquer uma das partes envolvidas, caminhoneiros ou governo, porque realmente não me sinto apta a emitir qualquer tipo de julgamento. E por realmente acreditar que o buraco seja muito mais embaixo. Examinando minhas próprias sensações e pensamentos acerca da greve, consigo perceber tão claramente a dinâmica da Codependência acontecendo dentro de mim que, com tanto trabalho interno para ser feito, não me sobra tempo nem energia para encontrar culpados ou vítimas do lado de fora. Porque eu passei exatamente pelo mesmo processo dos meus amigos. O “YES!” rapidamente se transformou em revolta quando a gasolina do meu carro começou a acabar e eu me vi sem ter onde comprar um botijão de gás – como cozinhar ou tomar banho gelado, em um frio de 13 graus que estava fazendo na cidade onde moro? E se meu filho caísse e estourasse a testa? Como ir para um hospital?

Eu SEI que esta é exatamente a realidade de milhões de brasileiros no país e é por isso que não me sinto no direito de reclamar da minha situação, em detrimento do que acontece fora dos limites da minha visão. Este é um dos motivos pelos quais, diante desta situação e de tantas outras que têm acontecido no Brasil, eu venho adotando uma postura que acredito ser a mais construtiva, levando em consideração meu nível de conhecimento e as habilidades e ferramentas das quais disponho no momento:

Eu olho a situação de cima.

Porque acredito que, diante de qualquer situação que aconteça na vida, temos duas formas de encará-la. Uma, do ponto de vista do Ego, horizontal. É o ponto de vista de quem sofre, de quem sente, de quem experimenta na pele os resultados de um acontecimento ou de outro. Este é o ponto de vista do codependente. De quem nega a própria vítima para cuidar do outro, de quem está tão preso na posição do “coitado” que vive olhando para o céu esperando que seu salvador surja sentado num cavalo branco, de quem, não precisa de muito, está buscando um grande culpado para responsabilizar pelas mazelas do mundo. Eu sei que este ponto de vista é extremamente sedutor e natural – é a forma como fomos criados, ninguém nunca nos ensinou a Autorresponsabilidade. Mas esta não é a única forma de encarar a situação.

Existe sempre a possibilidade de subir em um banquinho e olhar a situação de cima, sob o ponto de vista do Eu Superior. O ponto de vista de alguém mais interessado em expandir a consciência sobre si do que em encontrar culpados ou mocinhos em qualquer situação que enxerga. O ponto de vista de alguém que vai, antes de qualquer coisa, procurar iluminar os recônditos de escuridão e de inconsciência e ignorância que existem dentro de si – e, apenas em um segundo momento, com clareza sobre o que pensa e sente e, principalmente, sobre o que existe de seu na situação que observa do lado de fora, vai eventualmente tomar partido por qualquer um dos lados.

Eu sei que muita gente vai ler estas palavras e se questionar, “mas então quem é que faz alguma coisa de fato? Quem é que vai fazer a revolução acontecer?” – e eu acho este questionamento completamente legítimo e verdadeiro. E minha resposta legítima e verdadeira vai ser: não sei. O que sei é que enquanto não formos capazes de compreender de que modo caminhoneiros, governo e população existem dentro de cada um de nós, ninguém nunca será apto a conduzir uma mudança significativamente verdadeira. Porque os personagens vão mudar, a posição em relação ao centro vai mudar, os nomes e rostos vão mudar… Mas a dinâmica vítima-bandido-salvador vai continuar.

Que é exatamente o que eu vejo acontecendo no cenário político do Brasil há quase 4 décadas – sem querer entregar minha idade mas já entregando 😉

A última coisa da qual precisamos neste momento é de revolucionários de redes sociais. O que precisamos é de presença, consciência e meditação. É de quietude e interiorização. Como diz a célebre frase de C. G. Jung, que postei esses dias nas redes sociais,

“O melhor trabalho político, social e espiritual que podemos fazer é parar de projetar a nossa sombra nas outras pessoas”.

Faça a sua parte.
É a única coisa que você pode fazer.

Se você sente que chegou a sua hora de lidar com seus incômodos e desconfortos de uma forma nova, livre das dinâmicas da codependência, não perca a oportunidade de participar do treinamento online e gratuito Seja Inteiro! Ele faz parte das festividades de reabertura do Portal Despertar para novos assinantes e é aberto para qualquer um que esteja pronto para viver o próximo capítulo da sua vida.

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  • Flavia Melissa

    Sobre

    Flavia Melissa é psicóloga, educadora emocional e criadora do Portal Despertar, uma plataforma online auxiliar do processo de autoconhecimento que vem transformando a vida de centenas de pessoas. Considerada pelo Estadão uma das 14 Youtubers brasileiras para conhecer e acompanhar, lançou seu primeiro livro em janeiro de 2017, que entrou para a lista dos mais vendidos da Veja logo no pré-lançamento.