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Sobre a Raiva

Sobre a Raiva

A raiva pode ser definida como uma emoção caracterizada pelo sentimento de protesto, insegurança, timidez ou frustração contra uma sensação de ameaça sentida pelo Ego, que se enxerga ferido ou ameaçado. A forma como a raiva será exteriorizada depende de vários fatores, como nível educacional, valores morais e princípios pessoais desenvolvidos durante a constituição moral e psicológica

do indivíduo.

Enquanto emoção humana, a raiva não apresenta riscos a quem sente e, teoricamente, não dura muito tempo – todas as emoções são passageiras. Apenas se torna nociva quando é sentida por tempo prolongado, se transformando em rancor, irritabilidade, agressividade, fúria, ira, cólera, ódio, crueldade… Desta forma a cronificação da emoção de raiva pode ser resumidamente sintetizada em uma palavra: agressividade. Entretanto, torna-se necessário diferenciar a agressividade adaptada da não adaptada. A adaptada é um instinto extremamente primitivo, experienciado não apenas pelo ser humano mas também por todos os animais vertebrados.

A agressividade humana adaptada foi a força motriz que fazia com que o homem primitivo avançasse na direção de um animal para abatê-lo e dele poder se alimentar. Era através da agressividade que ele derrubava árvores e, a partir delas, construía casas, ou queimava a madeira em fogueiras para se proteger do frio e afugentar animais selvagens que poderiam colocar sua vida em risco. Era pela agressividade que o homem das cavernas lutava com o líder de um clã inimigo, que ameaçava a integridade de seu grupo de convívio. Em linhas gerais, a agressividade adaptada foi o combustível que permitiu que nossos antepassados atingissem seus objetivos, enfrentando e transpondo os obstáculos que se apresentavam entre eles e suas metas mais importantes de sobrevivência.

Entretanto, a não adaptada surge quando, mais do que movida pelo instinto de sobrevivência ou necessidade de adaptação, a agressividade se mostra exacerbada e manifestada em direções não produtivas ou injustificadas. Desenvolvida por John Dollard e colaboradores, a Hipótese da Frustração-Agressão propõe que todo sentimento de agressividade tenha suas raízes fincadas na frustração; quando a fonte geradora da frustração não pode ser transformada a contento, surge a agressividade, geralmente destinada a alvos inocentes ou que não são os responsáveis pela origem do sentimento. Assim, de acordo com esta hipótese, a frustração é a condição primária, na qual existe um objetivo que não está sendo atingido, e a agressividade surge como sentimento secundário à frustração.

A forma como a agressividade irá se manifestar, como dito anteriormente, depende de uma série de fatores ligados à cultura e valores nos quais o indivíduo foi criado. Em alguns casos, a agressividade não é voltada para fora, e sim para dentro, e em casos extremos pode causar uma série de transtornos. Diversos autores associam os Transtornos do Espectro Obsessivo-Compulsivo – como por exemplo a tricotilomania ou a compulsão por arrancar fios de cabelo da própria cabeça – a este mecanismo de interiorização da raiva e da agressividade.

O problema não é sentir raiva. O problema é permanecer sentindo raiva. Qualquer sentimento, quando não evolui e desaparece no mar da impermanência constante a qual todos nós nos encontramos submetidos, vira ressentimento (de re-sentir, sentir novamente). E emoções que se cronificam se tornam poderosas e nos escravizam. A pessoa agressiva pode ter atos impensados e mal-avaliados, podendo colocar a si mesmo e a outras pessoas em perigo. Além disso, se pensarmos na raiva primitiva adaptada – a agressividade que servia de combustível para que o homem primitivo perseguisse um animal ou derrubasse uma árvore – ela era experienciada durante algum tempo e, tendo sido atingido ou não o objetivo principal, desvanecia-se. As consequências biológicas da raiva (aumento do trabalho cardiovascular, descarga de adrenalina no corpo, “cegueira mental” que tem o intuito de fazer o homem enxergar apenas o objeto-gatilho do sentimento, tendo assim sua perseguição otimizada) não eram danosas. Quando a raiva se transforma em agressividade e permanece cronificada, o funcionamento biológico correspondente permanece em ação, podendo ocasionar consequências danosas inclusive no campo físico. Por isso diz-se popularmente que “sentir raiva é tomar veneno e querer que o outro morra”: realmente os subprodutos fisiológicos da raiva são tóxicos para o nosso sistema, funcionando efetivamente como um veneno.

Diante da constatação de que toda emoção de raiva e subsequente sentimento de agressividade possui um correspondente primário na frustração, o caminho mais saudável parece ser, mais uma vez, olhar não para fora, e sim para dentro. O que gostaríamos de obter e não estamos obtendo? O que gostaríamos de estar recebendo dos outros, ou de nós mesmos, e não estamos recebendo? Quais zonas de nossa vida estão nos desagradando? E o que podemos fazer para modificar o que deve ser modificado? Uma série de ferramentas podem ser usadas neste processo, da psicoterapia à meditação, passando pelo uso de florais e até mesmo da cromoterapia no sentido de acalmar nossos sentimentos.

Devemos agir com responsabilidade perante nossos próprios sentimentos, e usá-los não como desculpa por nossos atos, e sim como importantes instrumentos de navegação que nos auxiliam a atingir nossas metas e superar os obstáculos que, inevitavelmente, surgem como pedras em nosso caminho. Nós temos, sim, esta capacidade.

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