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QUANDO A CATÁSTROFE MORA APENAS EM NOSSAS CABEÇAS

Esta semana ouvi uma história que me fez pensar bastante na forma como vivemos nossas vidas e conduzimos nossos processos. É a história de um homem que, andando pela floresta em uma noite escura, lá pelas tantas escorregou e se sentiu cair, fugindo-lhe o chão sob os pés. A única coisa que o homem conseguiu fazer foi segurar em um galho e, quando deu-se por si, lá estava ele: sozinho, em meio à noite escura da floresta, agarrado a um galho de uma árvore que às vezes parecia meio solto, com os pés sem tocar o chão.

O homem não conseguia fazer absolutamente nada: ele se retorcia e contorcia mas de nada adiantava, seus pés não tocavam nada a não ser o vazio, e seus movimentos faziam apenas com que o galho balançasse mais e mais. Mais do que depressa o homem se viu perdido em seus pensamentos: “este galho está se soltando, não vai aguentar… Vou cair neste abismo e vou morrer! Ou, o que é pior, talvez eu caia e não morra, apenas me machuque o suficiente para que o cheiro de sangue e de ferimentos atraia animais selvagens, que vão me comer vivo! Ou talvez até mesmo lá dentro do abismo já existam os animais selvagens que irão me devorar… Ou talvez apenas animais peçonhentos, cobras e aranhas venenosas, que se me picarem vão me garantir uma morte lenta e dolorosa… Talvez eu deva começar a rezar para cair de uma vez e morrer na queda! Ó meu Deus, que triste fim terei para minha vida!”.

E lá o homem ficou, apavorado, durante horas agarrado ao galho, projetando as piores cenas em sua mente. E, enquanto isso, lentamente o tempo foi passando, trazendo o amanhecer e a luz que, quando já estava forte o suficiente, revelou a um homem absolutamente estupefato que o chão estava a míseros 30 cm de seus pés.

Agora me digam: quantas e quantas vezes não nos vemos exatamente nesta mesmíssima situação? Quantas vezes, em nossas vidas, não nos apavoramos diante de uma situação apenas porque não conseguimos enxergar claramente onde estamos?

Semana passada eu atendia a uma paciente que experimenta uma situação bastante peculiar em sua vida. Depois de ter se dado muitíssimo bem em sua profissão no Brasil, resolveu que era hora de arriscar suas chances no mercado internacional e vive, em caráter definitivo, há pouco mais de seis meses nos Estados Unidos. Ela ainda não conseguiu por lá o mesmo destaque que conseguiu no Brasil, mas já possui alguns projetos em andamento, está tendo aulas com pessoas especialmente bem-conceituadas em sua área de atuação e está fazendo absolutamente tudo o que depende dela para conseguir atingir seus objetivos. Em determinado ponto de nossa conversa ela me disse: “Existem apenas duas alternativas: ou eu dou certo por aqui ou vou embora para o Brasil, porque não quero ficar aqui fracassando no que me propus a vir fazer”.

No momento em que ela disse esta frase senti como se uma pulguinha me mordesse atrás da orelha e, pensando um pouco sobre isso, rapidamente entendi o que havia me incomodado em sua fala. O problema é que se existem apenas duas alternativas, ser bem-sucedida ou fracassar, mas ela ainda não chegou onde gostaria de chegar… Aonde ela está neste momento? Sim, neste exato momento ela está fracassando. No hoje, que é o único lugar onde vivemos, ela está pendurada em um galho sobre um abismo, imaginando todas as centenas de possibilidades terríveis que podem lhe acontecer a qualquer momento, porque no lugar onde ela está HOJE não existe luz suficiente para perceber exatamente qual lugar é este. Talvez ela esteja no caminho certo para conquistar tudo aquilo que almeja, talvez a única coisa que ela demande, neste momento, é o tempo necessário para as coisas acontecerem… É noite, ainda não clareou e tudo o que ela sente são os pés balançando sobre o nada. Mas isso não significa que exista o abismo.

Nós vivemos em uma realidade tridimensional, o que significa que, neste plano, os corpos possuem três dimensões: altura, largura e profundidade. Estas três dimensões conferem aos corpos um volume, que ocupa um determinado espaço. E no momento em que é criado o espaço é criado também o tempo. Se existe um espaço entre os pontos x e y, percorrer este espaço demanda tempo – e é por isso que os cientistas dizem que não existe tempo sem o espaço e nem espaço sem o tempo (e acaba aqui a minha aparente fluência na área de exatas). Mas o fato é que nossa realidade tridimensional é regida pelo tempo, absolutamente necessário para que os processos aconteçam.

Mas estamos tão desconectados da vida que viemos para viver, regida pelos ciclos naturais e da naturalidade, que achamos que o tempo psicológico é mais determinante do que o cronológico. Sejamos sinceros, quantas e quantas vezes não nos enxergamos em um beco sem saída existencial do mesmo modo que minha paciente que vive nos Estados Unidos, dando a nós mesmos duas alternativas – sucesso ou fracasso – e nos identificando como fracassados simplesmente porque ainda NÃO TIVEMOS TEMPO SUFICIENTE para chegar onde queríamos? Mas, se fizermos um exercício simples, como por exemplo olhar para uma flor que ainda é um botão, ou uma árvore que perdeu todas as suas folhas no outono ou, ainda, para um filhotinho de gato que ainda não abriu os olhos… Seríamos capazes de considerá-los fracassos apenas porque uma não desabrochou, a outra não renasceu na primavera e o pobre filhotinho de gato acabou de sair da barriga da mãe e mal teve tempo de terminar de nascer? NUNCA! Mas não hesitamos em fazer este rápido julgamento quando se trata do nosso caso… Por quê?

Existem muitas e infinitas tonalidades entre o preto e o branco. “Existem mais coisas entre o céu e a terra do que pressupõe nossa vã filosofia”, disse um homem sábio, há muito tempo. E a regra continua valendo até hoje. Faça um pequeno exercício e tente, de todos os modos, buscar uma situação na sua vida em que algo que você imaginou aconteceu EXATAMENTE do modo como aconteceu na sua cabeça. UMA, que seja. Mas não vale uma em que QUASE aconteceu ou uma em que aconteceu algo muito semelhante. Eu digo: igual. Então que tal pararmos de imaginar que a catástrofe que criamos dentro da nossa cabeça vai se manifestar na vida real?

Porque, às vezes, o único lugar em que a catástrofe acontece é, de fato, em nosso pensamento.

Boa semana, boa vida!

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  • Flavia Melissa

    Sobre

    Flavia Melissa é psicóloga, educadora emocional e criadora do Portal Despertar, uma plataforma online auxiliar do processo de autoconhecimento que vem transformando a vida de centenas de pessoas. Considerada pelo Estadão uma das 14 Youtubers brasileiras para conhecer e acompanhar, lançou seu primeiro livro em janeiro de 2017, que entrou para a lista dos mais vendidos da Veja logo no pré-lançamento.