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Você tem pressa em se desenvolver?

Você tem pressa em se desenvolver?

Então a situação é a seguinte: você acaba de ter um insight ou se dar conta de uma questão superimportante para você. Pode ser que isso aconteça durante uma sessão com seu terapeuta. Talvez em uma conversa com um amigo. Talvez, ainda, enquanto assiste a um vídeo meu. De repente algo, uma visão, um ângulo novo de acordo com o qual você nunca havia enxergado, uma determinada situação e que, de uma hora para a outra, faz cair aquela ficha.

Talvez aquele momento em que você sente até mesmo “vergonha alheia” de si mesmo, sabe quando você pensa, “putz, não acredito! Eu faço isso mesmo!”. E, aí, mais do que depressa você se pergunta: “e agora? O que eu faço com isso? Como faço para deixar de ser assim?”.

Calma. Reflita: por que é que, sempre que nos damos conta de que estamos sentindo algo, necessariamente precisamos FAZER ALGUMA COISA COM ISSO? Por que essa urgência em fazer, realizar, acontecer? É um fenômeno que vivencio muito em meus atendimentos: mal as pessoas se dão conta de algum sentimento ou algo em suas vidas, eles já me perguntam: “tá, e o que eu faço com isso?”. Minha resposta: “Como é que eu vou saber? É seu!”.

A grande verdade é que, em matéria de desenvolvimento pessoal, não existe fórmula mágica. E a realidade é que, na esmagadora maioria das vezes em que você se atormenta questionando-se o que é que você pode fazer a respeito de algo, você está mesmo é querendo se livrar deste algo. Até aí, nada de novo: somos equipados com uma estrutura psíquica chamada “Ego”, que tem como maior responsabilidade exatamente isso: livrar-se do desconforto. Mas a verdade é que você vem a vida TODA tentando sistematicamente se livrar do desconforto, e suas atitudes te trouxeram até onde você está hoje. E, pura lógica, se quer chegar a lugares diferentes, simplesmente tome caminhos diferentes.

Pare de querer fechar seus olhos para algo que você acabou de se dar conta que existe. Experimente, ao menos uma vez, ficar com o que te pertence: seu mal-estar. Que, antes de mais nada, é absolutamente circunstancial. Algo pode ser uma verdadeira desgraça hoje e sua maior bênção amanhã. Seu mal-estar está embasado, apenas, em uma sensação física que você experimenta em seu corpo e à qual dá um nome, bom ou ruim. Mas a verdade é que o coração disparado, a boca seca e pernas trêmulas são tanto sintomas físicos de paixão quanto de pânico diante de um assalto.

Aceite, respire e acolha o que quer que seja seu e que você odeie. Não coloque um prazo final para o seu desenvolvimento pessoal e espiritual. Não existe um “deadline”. O que existe é processo, é busca, é crescimento e aprendizado. Sempre que ouço alguém me dizer, “mas eu já tenho trinta e poucos anos, já estava na hora de ser assim ou assado” tenho vontade de dizer: “corrigindo: você não tem trinta e poucos anos. Você tem treze BILHÕES de anos”. Na natureza nada se cria nem se destrói, tudo se transforma. Você existe desde o princípio do Universo, ainda que tenha tido inúmeras formas diferentes da embalagenzinha de carne bonitinha e perfumada que é hoje. Sua energia esteve, está e estará em constante evolução.

Portanto pare de querer apressar as coisas, saindo de um lugar que você mal teve tempo o suficiente para experimentar. Experimente estar onde você está e sentir o que você está sentindo. Experimente, apenas, ser quem você é, sem nenhum tipo de resistência ao que quer que seja que ocupe seu interior neste momento. Se você tiver acabado de perceber que sente inveja de uma amiga, não apenas permita-se sentir esta inveja: SEJA a inveja. Transforme-se na inveja. E perceba como, em uma passe de mágica, a inveja simplesmente evapora. Como se o sentimento “gastasse”, como se a brincadeira perdesse a graça – como se, mais do que depressa, seu Ego buscasse uma outra coisa melhor para fazer – algum outro pensamento ou ideia mental para se apegar.

Antes de gastar sua energia tentando sair de uma situação, antes experimente ENTRAR na situação. Você precisa aceitar que isso existe, e não existe possibilidade de aceitação na cegueira do que é. Questione-se: como isso repercute em mim? Como isso me transforma? O que eu sinto por mim mesmo diante da existência disso em minha vida? E será que, algum dia, eu sequer cheguei a existir sem isso? Será que isso merece um espaço dentro do meu coração?

Para sair de algum lugar antes se torna necessário estar neste lugar. Não existe outro modo de dar um passo sem ser erguer um pé do chão enquanto o outro sustenta o movimento, muito bem apoiado no solo. É preciso pisar no chão. É preciso ser. Se não, não existe desenvolvimento. Existe fuga. E nada mais.

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