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Porque resistimos tanto a tudo o que mais desejamos?

Porque resistimos tanto a tudo o que mais desejamos?

P: “Acompanho seu trabalho há bastante tempo e aprendi muito sobre cocriação, mas uma coisa não consigo conceber: porque temos, em alguns momentos, tanta dificuldade em admitir que podemos fazer sucesso e aceitar nossa felicidade? Porque esta plenitude parece ser tão perigosa e resistimos tanto a ela?”

R: Uma de minhas frases preferidas, de Henry Ford, diz o seguinte: “quer você acredite que pode fazer algo, quer acredite que não pode, de qualquer forma você está certo”. Concordo demais com este dizer, que revela tão escancaradamente o poder de nossas crenças.

Crenças são princípios orientadores que determinam nossos comportamentos. Não nascem conosco, sendo aprendidos ao longo de nossa vida inteira. Mas, por volta dos 7 anos de idade, todos nós temos um sistema de crenças já definido, que poderá ser modificado (com algum esforço) durante nossa vida. Este sistema de crenças foi sendo construído ao longo das experiências de interação com o mundo externo, levando em consideração o que nos diziam nossos pais, nossos professores, nossas figuras de referência e autoridade de modo geral, e também nossa cultura e o momento histórico no qual estamos inseridos.

Resumidamente, tudo aquilo que ouvimos um determinado número de vezes acaba sendo “tatuado” no nosso inconsciente e se torna crença. Elas podem ser bastante óbvias, como por exemplo a crença de que passar debaixo de uma escada pode trazer azar… E podem ser mais elaboradas, como o que dizem ditados populares bastante conhecidos como “quem tudo quer tudo perde”, “mais vale um pássaro na mão do que dois voando” e “não se pode ter tudo”.

Estes ditados populares, a meu ver, são excelentes formadores de crenças limitantes – sim, porque as crenças podem ser possibilitadoras, quando nos possibilitam novos comportamentos e ampliam nosso leque de possibilidades de ação, ou limitantes, quando nos limitam. E crenças destes tipos limitam nossa percepção do que é real, possível e até mesmo desejável.

O inconsciente é absolutamente literal e meio “sonso”. Para ele, as coisas são pão-pão-queijo-queijo, pois sua lógica é regida por três palavrinhas fundamentais: omissão, distorção e generalização. Algo na linha do “o pássaro tem asas, o avião tem asas, o pássaro voa, o avião voa – logo o pássaro é um avião”. Ela não é feito para ponderar ou relativizar conceitos aprendidos, ele simplesmente omite fatos, distorce situações e generaliza aprendizados. O que quer dizer que não importa se quando você ouviu a sua mãe te dizer “aprenda, minha filha: nesta vida não se pode ter tudo” ela estava se referindo ao dinheiro para o cinema e a pipoca e a brincadeira no Playland – tudo no mesmo passeio de sábado – e não a todas as outras situações na vida em que você pode querer ter muitas coisas. Se nesta vida não se pode ter tudo, não se pode ter tudo em qualquer situação. Então, se você está feliz no seu relacionamento amoroso, tem uma boa saúde, amigos bacanas e um emprego incrível, mais do que depressa vem à tona outra crença limitante: “está bom demais para ser verdade”, ou então, “quando a esmola é demais o santo desconfia…”. E você, mais depressa e totalmente de modo automático, começa a ter a sensação de que alguma coisa ruim vai acontecer.

Se você tiver sido criado, como tantas pessoas, ouvindo ensinamentos derivados das tradições judaico-cristãs, pode ainda se deparar inconscientemente com “verdades” como “é mais fácil um camelo passar por um buraco de agulha do que um rico entrar no reino dos céus”, ou então “bem aventurados os pobres de espírito, pois é deles o reino de Deus”. Todas estas crenças, ligadas a tantas outras que nos permeiam e preenchem sem sequer nos darmos conta, pode nos aprisionar em armadilhas de querer algo o tão profundamento quanto tememos este mesmo algo.

A verdade é que todos os nossos comportamentos são regidos por crenças possibilitadoras e limitantes – mas nem sempre temos consciência de quais são elas. Podemos apenas ter a vaga sensação de que não estamos fazendo tudo o que poderíamos e a expressão “autossabotagem” pode nos vir à mente. Passamos a vida toda ouvindo que não se pode ter tudo, que quem tudo quer tudo perde, que quem muito ri hoje irá chorar amanhã… Como podemos reunir nossas forças para tentar ter tudo, para querer alcançar nossas metas sem perder coisas que já conquistamos e nos sentir felizes e alegres ao ponto de chorar de rir? Como, se dentro de nós temos “verdades” tão bem tatuadas? Afinal, foram nossos pais, mestres e líderes quem nos contaram estes “segredos” todos! É uma batalha fadada ao fracasso.

A verdade é que não existe possibilidade de iluminação ou de autoconhecimento que não passe por jogar luz na própria sombra – e é na sombra que nossas crenças mais profundas estão. Eu, como já disse antes, só me dei conta do padrão de funcionamento inconsciente e limitante que me regia sem eu saber ao participar de meu primeiro Namastê, como treinanda. Foi apenas no Namastê que eu me dei conta de quantas crenças estavam determinando meus comportamentos, sem que eu tivesse qualquer conhecimento disso. E hoje, passados quase três anos desta primeira experiência, tenho descoberto tantas outras crenças limitantes – participar do Programa Escolha Sua Vida vem sendo um baita de um aprendizado neste sentido…

Mas não estou aqui dizendo que participar de um treinamento de um final de semana ou de um programa de coaching de 12 semanas sejam as únicas formas de entrar em contato com tudo aquilo que te limita. Mas, se você realmente vem sentindo medo da felicidade e da realização plena, como me escreveu em sua pergunta, te digo que buscar alguém de fora que te norteie em sua própria busca talvez seja fundamental. Porque, às vezes, nossas verdades mais obscuras estão tão escondidas dentro de nós que, sozinhos, simplesmente não conseguimos enxergar um caminho para dissolvê-las.

Como diz Jung, “Ninguém se torna iluminado por imginar seres de luz, e sim por jogar luz em sua própria escuridão”. Boa sorte!

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