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Eu e minha irmã: comparação e frustação

Eu e minha irmã: comparação e frustação

P: “Tenho uma irmã cuja nossa diferença de idade é muito pouca. No entanto, apesar de sermos muito amigas, temos personalidades distintas: ela é muito racional e eu muito emotiva e impulsiva. No entanto, ao vê-la tendo êxito nos relacionamentos e eu não, me sinto apegada aos conselhos dela e a coloco sempre como um espelho. Sempre penso que se eu seguir minha intuição, vai dar errado. Como tirá-la dessa função de espelho?”

R: Em primeiro lugar, julgo importante deixar uma coisa bastante clara: sua irmã nunca deixará de ser um espelho. Pessoas são espelhos e relações são especulares. Ponto. Sempre foram e sempre o serão. Inevitavelmente, ao olharmos uma pessoa, projetaremos nela algo nosso. O problema não é a pessoa ser um espelho, o problema é não gostarmos da imagem que está sendo refletida. E você não gosta da imagem que está enxergando, este é o ponto. Sua irmã é apenas um instrumento através do qual você está ganhando uma percepção maior e diferente sobre si mesma. Apenas isso, um instrumento.

A questão é que absolutamente nada, quando se trata da relação de irmãos, é um mero “apenas”. Relação entre irmãos é sempre hiper mega complexa, porque é através dos nossos irmãos que experimentamos, pela primeira vez na vida, um sentimento que irá se manifestar em N outras situações de nossas vidas: a competitividade. Qualquer um que tenha irmãos sabe disso e tem uma boa dúzia de lembranças em que os próprios pais estabeleceram uma comparação entre comportamentos e atitudes de ambos. Qualquer um que tenha irmãos tem, pelo menos meia dúzia de situações em que se sentiu inferiorizado ou superior em relação aos irmãos. Então, quando pensamos em relações conflituosas entre dois irmãos, inevitavelmente estamos nos referindo, direta ou indiretamente, a uma relação de competição estabelecida consciente ou inconscientemente, por uma das partes ou por ambas, na relação.

E quando falo de relações conflituosas não estou falando, necessariamente, de uma relação em que haja conflito ou brigas entre os irmãos. Muitas vezes a relação é aparentemente saudável, mas apenas porque os sentimentos de contrariedade não estão sendo trazidos às claras. Então, o que estou chamando aqui de relações conflituosas não são relações em que necessariamente os irmãos se batam, e sim relações que possuem conflitos, como esta de vocês. Você experimenta um conflito quando observa o modo como você age e o compara com o modo de agir da sua irmã, você acha que seguir sua própria intuição e fazer as coisas de acordo com sua própria visão de mundo e percepção de si mesma, vai dar errado. Então, por mais que vocês sejam amigas e se deem bem, a relação de vocês é conflituosa. E, como eu disse anteriormente, o conflito vem da competição e comparação. A questão não me parece ser provar ou não que esta competição existe, e sim entender quais atitudes suas corroboram para que ela continue existindo.

Um zilhão de fatos podem estar relacionados a esta competição: desde o modo como vocês foram criadas, quem é a mais velha e quem é a mais nova, os valores morais e o sistema de crenças vigentes em sua família… E, inclusive, o modo como seus pais se relacionavam com seus próprios irmãos vai contar no modo como você foi educado e como foi instigado a se relacionar com sua irmã. Se, por acaso, você refletir sobre estes pontos que estou mencionando e for encontrando “coincidências” ou padrões de relacionamento, vale a pena investir em um processo de autoconhecimento mais profundo e procurar o auxílio profissional de alguém que te guie nesta jornada. Afinal, incomodou e doeu, leva prá casa que é seu. E eu me perguntaria, agora mesmo, qual parte sua concorda com o que ela te aponta como caminho mas que, por uma série de motivos, não consegue colocar em prática. De novo: olhe para dentro de você. Nenhum caminho passará por nenhum outro lugar que não seja por dentro, muito dentro de você.

Mas, de qualquer forma, preste muita atenção ao que vou te dizer em seguida.

Seres humanos são seres únicos. Não importa o quão possam se parecer por fora, não importa se têm os mesmos pais, não importa se são gêmeos: um é diferente do outro e absolutamente nada vai conseguir fazer com que enxerguem o mundo do mesmo modo e ajam com as pessoas da mesma forma. Imagine uma rosa, em um jardim, olhando para a margarida ao seu lado e se sentindo inferior porque a margarida tem as pétalas mais abertas. Ou a margarida se cobrando porque não exala o mesmo perfume que a rosa. A própria ideia de comparação entre uma rosa e uma margarida é ridícula, certo? Cada uma tem sua própria natureza e suas próprias características. Mas e nós? Porque achamos que podemos nos comparar? Porque a ideia de nos compararmos com nossos irmãos, com nossos amigos, com nossos inimigos não nos parece ridícula?

Somos criados dentro de uma sociedade cujos valores incitam esta comparação. Desde pequenos nos habituamos a nos sentir melhores ou piores com relação a nós mesmos usando os outros como referência – é só nos lembrarmos da época da escola. Você tirava sete na prova, e a média da classe havia sido cinco, e você se sentia bem. Mas se por acaso tirava sete e a média da turma havia sido oito e meio, seu mísero sete perdia completamente o valor e o significado. Todo o nosso modelo educacional é baseado nesta comparação, então nos comparar com os outros e termos nosso valor aumentado ou diminuído em função do valor do outro torna-se algo muito normal e aceitável.

Todo o nosso desafio é conseguir interromper este surto de dualidade “eu e outro” e retomarmos nosso lugar original de sermos o centro do nosso Universo. Nosso trabalho é justamente interromper esta cadeia viciada de comparações e nos dar conta de que ninguém, no mundo inteiro, se assemelha a nós mesmos. Nossa missão neste mundo e nesta vida é nos reconhecermos como verdadeiramente somos: seres de luz, de brilho único e incomparável. Você pode pegar dez velas idênticas e acendê-las ao mesmo tempo e colocá-las para queimar uma ao lado da outra e verá, talvez bastante surpreso, que cada chama é uma e se move e arde de uma forma. Não existem dois brilhos iguais, como não existem duas estrelas iguais, como não existem dois seres humanos iguais.

O que vale para uma pessoa não vale para outra. O que dá certo para alguém pode dar errado para uma outra pessoa. E quando você fala de comparar-se com a sua irmã, se conseguisse observar a situação com maior distanciamento perceberia que em algumas situações você vai estar tendo mais sucesso do que ela – e isso não significa que ela esteja agindo de forma “errada” e você de uma forma “certa” nestes casos. Significa, apenas, que cada uma está em sua própria história, seguindo seu próprio caminho, tendo seus próprios aprendizados e experimentando seus próprios desafios. Ninguém está errando ou fracassando: estamos todos crescendo.

A solução nunca será quebrar o espelho, e sim buscar uma forma do seu reflexo ser mais agradável a seus olhos. Pense nisso.

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