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BLOG ♡ Sobre ilusão de controle e gratidão

BLOG ♡ Sobre ilusão de controle e gratidão

A gente acorda todos os dias determinado a fazer o que a agenda manda. Às 8h temos que estar no trabalho, às 10h na reunião, ao meio-dia é hora de almoçar – mesmo que o estômago ainda não esteja roncando, porque é o horário em que as pessoas almoçam, certo? Depois de uma tarde de compromissos, 18h é o horário de bater em retirada, porque a academia fecha às 22h e temos que aproveitar para mexer o corpo e nos tornarmos saudáveis, depois de um dia sentados sem nos movimentarmos muito. Certo? Não é assim? E aí os dias se passam e o final de semana chega e, então, aí é hora de ver pessoas, as que são muito importantes em nossas vidas – aliás, é apenas pelas pessoas que se vive, elas são o que é real. O resto do tempo todo estamos no piloto automático, vivendo a vida sem pensar muito nos porquês. Planejando o próximo final de semana com os amigos, as próximas férias com a família, a casa que iremos comprar com o marido ou a esposa para termos a família que queremos ter daqui a alguns anos. Certo?

Ao escrever estas linhas não posso deixar de pensar em quão sem sentido uma vida assim me parece, já há algum tempo. Sem sentido fazer algo no piloto automático a maior parte do seu tempo pensando, apenas, nas boas horas de prazer e descanso para a alma que um final de semana representa, ou no que as férias se definem, ou no que a casa – lá no futuro, sempre tão longe – um dia irá me proporcionar de prazer e acalento. Acompanhando vidas e suas histórias já me confrontei com o imprevisível um número de vezes suficiente para saber que, na grande maioria das vezes, a coisa não acontece desta forma – muito pelo contrário. Planeja-se o final de semana para, na última hora, o carro quebrar e as coisas saírem completamente do planejado. Vive-se na iminência das férias e quebra-se a perna uma semana antes das tão sonhadas horas de descanso e prazer. Organiza-se toda a vida para uma temporada de estudos no exterior mas, diante de uma subida inesperada do dólar, todos os planos vão por água abaixo. INESPERADA – é disso que chamamos uma situação com a qual não contávamos. Porque, por mais que planejemos as coisas e tentemos controlar o que nos acontece, apenas podemos ESPERAR que tudo ocorra como planejamos.

Como eu disse: já há algum tempo viver a vida desta forma me parece sem sentido e na busca por sentir o que me faz mais sentido, construí uma rotina mais alinhada com as coisas nas quais acredito – e durante um bom tempo vivi muito bem com isso! Paguei os preços necessários para não ter um chefe para quem precise pedir para emendar o feriado, optei por trabalhar perto de casa para não perder um quarto da minha vida no trânsito e decidi fazer das pessoas a minha rotina, para não ter que passar a vida esperando pelas férias para, então, poder estar com seres que me engrandecem a alma. E estava tudo certo. No processo, conheci um homem com quem desejei compartilhar a minha vida – após tantos encontros e desencontros por aí. Ele tinha um tumor cerebral e nenhum plano de saúde mas, milagrosamente, conseguimos a cirurgia gratuitamente com o maior especialista da América Latina no tipo raro de tumor que ele tinha. Mais certo do que isso, impossível! Certo?

E então: decidimos ter um bebê. Eu nunca na vida havia sentido vontade de ter um filho com nenhum dos homens encontros-e-desencontros que passaram pelo meu caminho, mas com ele… Com ele não se tratava apenas de ter vontade de ter um filho: era a consequência natural do que sentíamos um pelo outro. Me desculpem os infelizes e descrentes, mas nosso relacionamento é perfeito: nunca tivemos uma discussão sequer, nos damos hiper bem com as respectivas famílias e, juntos, estamos vivendo a vida do modo como decidimos viver. Um filho seria a coroação deste processo e, exatos nove meses depois de termos deixado de evitar a concepção, me descobri grávida! Perfeito, certo? Puxa! Exatos nove meses depois! Tinha que ser, não é? Certo?

Pois eu fiquei feliz e exultante por 30 segundos e, logo em seguida, fui tomada pelo desespero. Apesar de sentir dentro do meu coração que ter um filho com o único homem que amei de verdade na minha vida era a coisa mais acertada que eu já tinha feito, todo o meu senso de que “tudo corre de acordo com a mais perfeita ordem divina” caiu por terra. Eu comecei a sentir muito, muito medo. Medo de que nossas famílias não aprovassem nossa decisão (afinal ainda não moramos juntos), medo de que não fôssemos capazes de dar conta do recado, medo de que o bebê tivesse algum problema de formação genética, medo de que algo acontecesse e eu perdesse o bebê. Afinal, essas coisas acontecem, certo? Tenho uma paciente queridíssima que descobriu que estava grávida uma semana antes que eu e, uns 15 dias depois, perdeu o bebê – porque ela, e não eu? Ela é uma pessoa incrível, forte e sábia, porque eu seria mais merecedora de tudo fluir bem do que ela? Em uma consulta com uma das profissionais de saúde que me acompanham, ela me disse: “ah, que legal, parabéns! Agora vamos esquecer este assunto e voltamos a falar dele quando você completar 12 semanas, porque a gente sabe que até lá nada é garantido, né?”.

Então a vida, agora, era isso: estar felicíssima por estar esperando um bebê do homem que eu amo mas sem “poder” comemorar ou festejar demais porque “a gente sabe que nada é garantido”. Super ok, momento confesso – e podem me julgar por isso, mas pensamentos do tipo “e eu vou me apegar antes de saber se vai vingar?” passaram super pela minha cabeça. E, então, ao compartilhar estes pensamentos com uma amiga terapeuta querida, ouvi dela: “quer dizer então que você precisa de garantias para amar?”. Blecaute total: alguém anotou a placa do caminhão? Mas não era justamente o contrário disso que eu “pregava” para as pessoas? Viver a vida pelo amor, e não pelo medo? E eu estava fazendo exatamente o oposto?

Não pensem que pelo fato de eu ter escrito tudo isso até agora no tempo verbal passado, abandonei estas questões por completo. Não pensem que, pelo fato de hoje já ter completado 18 semanas de gestação, o medo diminuiu. A verdade é que eu ainda vivia numa baita ilusão de controle, igualzinha a que vivem todas as pessoas que entram às 8h no trabalho, almoçam ao meio-dia mesmo sem ter fome e saem do trabalho às 18h porque a academia fecha às 22h, e que planejam as férias para, então, serem felizes com as pessoas que amam. Eu não era – e nem sou – diferente EM NADA destas pessoas. Porque agora eu não fico esperando o relógio marcar 18h para me sentir feliz, e sim esperando chegar a próxima consulta com a médica para ouvir o coraçãozinho do meu moleque bater pra saber se está tudo bem com ele – e comigo. Porque eu continuo precisando de garantias para amar, aparentemente. Porque cada dia é um dia diferente – alguns ótimos, de paz profunda, e outros terríveis, regados a lágrimas e a certezas de que todo o sonho vai acabar a qualquer instante porque “está bom demais para ser verdade” e “quando a esmola é demais o santo desconfia” e todas as crenças limitantes que eu venho sistematicamente limpando da minha mente há anos mas que, aparentemente, apenas estavam escondidas em algum outro porão, quietinhas e disfarçadas.

A verdade é que estar grávida está me colocando frente a frente com a minha sombra: com os meus medos, meus anseios, minhas angústias. Com a minha necessidade brutal de controle, ao ponto de chorar no ombro do meu namorado porque queria que minha barriga fosse transparente, só prá saber que estava tudo bem e “poder continuar feliz”. Como se algo me impedisse de qualquer coisa, além de mim mesma. Sim, esta mesma “mim mesma” que diariamente invade a vida de cada um de vocês, nas redes sociais, falando sobre a importância do “Orai e Vigiai”, sobre o poder dos pensamentos e de como somos cocriadores de nossa realidade.

Daria para me sentir uma farsa diante de tudo o que venho dizendo ao mundo nos últimos anos, se não fosse por um único e fundamental detalhe: o enorme sentimento de gratidão que, apesar de tudo, é o que domina a minha alma e o meu coração. Um sentimento de gratidão tão grande que, só de escrever estas palavras, me vêm lágrimas aos olhos. Gratidão por estar tendo a chance de gerar um filho em meu ventre, gratidão pelos aprendizados que estou tendo no caminho, gratidão pela possibilidade de conhecer mais sobre mim mesma e minha própria sombra – gratidão por ter a oportunidade de compartilhar tudo o que vem acontecendo no meu interior com todos vocês podendo, quem sabe, inspirar e encorajar alguém a estar mais em paz consigo mesmo e com o que quer que seja que esteja acontecendo em suas vidas. Gratidão por estar viva, neste tempo e espaço, vivendo o que estou vivendo – pura e simples GRATIDÃO. Gratidão, apesar de todo o medo e de toda dúvida e de todo o anseio.

E pelo simples fato da gratidão que eu sinto ser maior do que qualquer medo, penso que estou no caminho. Porque, mais do que nunca, desenvolvimento pessoal para mim não significa transcender o Ego (de onde vem todo o medo) – e sim coexistir pacificamente com ele. Apesar do medo, tenho a consciência de que tudo, ABSOLUTAMENTE TUDO, corre de acordo com a perfeita ordem divina e que, no final das contas, vai acontecer exatamente o que tiver que acontecer para que a vibração que existe em meu interior se manifeste no meu exterior – e para que possa existir um alinhamento total entre todas as minhas partes, sombrias ou iluminadas.

E eu NUNCA, em minha vida toda, tive tanta certeza de que estou vivendo exatamente o que tinha que estar vivendo. Gratidão, imensa gratidão pelo aqui e agora. Por estar com os olhos abertos. Hoje e sempre.

Namastê.

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