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Homossexualidade e Espiritualidade

Homossexualidade e Espiritualidade

P: “Tenho 19 anos, sou gay e gostaria de saber se existe alguma relação entre sexualidade e espiritualidade. É certo? É errado? Desculpe-me pela minha pergunta talvez equivocada, mas não sei muito ao certo sobre o assunto ‘espiritualidade’. A única certeza que tenho é que tenho orgulho de mim e que nunca escolhi ser assim, apenas nasci assim! Só gostaria de ter algumas respostas de porquê nasci gay! Você tem algo em mente?”

R: Em primeiro lugar, deixe-me deixar claro uma coisa: eu não faço a menor ideia do porquê de você ter nascido gay. Eu não faço a menor ideia do porquê de eu ter nascido heterossexual e, para a falar a verdade, não sei nem te dizer se eu tenho alguma opinião a respeito de se nascemos heterossexuais ou homossexuais ou bissexuais ou transexuais ou travestis ou sei lá mais o quê. Mais ainda: na minha opinião e no meu entendimento, não faz muita diferença se esta é uma escolha ou se não é, se nascemos assim ou se não nascemos, se é uma questão de destino ou qualquer outra coisa. Acho que já temos muito com o que nos preocupar pensando em COMO somos, para quê nos preocuparmos com o PORQUÊ? O fato é o seguinte: você é gay, e pronto. Meu conselho é: não perca tempo e energia investindo tempo e energia em tentar entender algo que, neste momento, vai fazer pouca ou nenhuma diferença. Tanto faz o porquê de você ter nascido ou virado gay. O que importa, e o que sempre importará, é o modo como você se sente em relação a isso.

Dito isso, vamos para um outro ponto importante, que é o conceito de espiritualidade. E, digo isso apenas levando em consideração a minha percepção, espiritualidade não tem nada a ver com religiosidade, e sim com respeito – ao próximo e a mim mesmo. Eu não me interesso por quantos mantras ou orações uma pessoa conhece, e nem pela frequência com que ela frequenta uma igreja, terreiro, templo, sinagoga ou qualquer outro nome que você queira dar ao local onde esta religiosidade se expressa. Eu não me interesso também pelo nome que uma pessoa dá a Deus e, pasme: não me interesso nem por se a pessoa acredita que Deus exista ou não. Mas, como assim, dá pra ser espiritualizado e ateu, não acreditar em Deus, ao mesmo tempo? Na minha opinião, SIM. Por que espiritualidade, para mim, tem a ver com a forma como nos relacionamos com um sistema maior.

De que modo você se relaciona com as outras pessoas? Você aceita pontos de vista diferentes do seu? Respeita a possibilidade que cada um tem de ser diferente de você? Mais do que isso: você se apropria e se responsabiliza pela sua vida? Ou se faz de vítima e justifica suas atitudes apoiando-se em atitudes de outras pessoas? Você se coloca como agente ou como reagente da própria vida? Indo mais além: como você lida com o seu desconforto? Você consegue olhá-lo como algo que te faz crescer e que é um importante “termômetro” das suas fragilidades e vulnerabilidades? Ou se faz de forte e critica, em todo mundo que passar na sua frente, aquilo que existe dentro de você mas dói demais enxergar?

Se formos pensar em espiritualidade como a forma através da qual vivemos a nossa vida cotidiana, respeitando o outro e a nós mesmos, apropriando-nos de nossas próprias vidas, dando-nos o direito de sermos como somos E ao próximo o direito de ser como é – ainda que seja diametralmente o meu aposto… Qual a relação que existe entre homossexualidade e espiritualidade? Pois é, nenhuma. Uma pessoa pode ser homossexual e espiritualizada, pode ser espiritualizada e não ser homossexual e ser homossexual e não ser espiritualizada. Do mesmo modo como pode ser moreno e vegetariano, ser moreno e não ser vegetariano e ser vegetariano e não ser moreno! São apenas características. Nada além de características.

Preste muita atenção a algo que vou te dizer agora: NADA possui significado, quando analisado de forma absoluta. É apenas na relatividade das coisas que elas ganham sentido – e veja bem que interessante, ‘sentido’ vem de SENTIR. Então as coisas ganham sentido nas nossas vidas quando nós as sentimos, e é apenas isso que atribui algum significado a tudo o que vivemos. O que me chama a atenção na sua pergunta em si não é a sua pouca experiência no campo da espiritualidade, nem o seu orgulho com relação a si mesmo, nem a certeza de ter nascido gay e nem mesmo a sua curiosidade sobre os motivos de ter nascido gay. O que me chama a atenção é: porque você está fazendo esta pergunta? O que muda, na sua vida, no seu orgulho de si mesmo e na sua compreensão de suas próprias experiências, saber o porquê de ser gay ou receber uma explicação espiritualista dos motivos da homossexualidade existir?

Posso estar redondamente enganada, não sou dona da verdade e simplesmente desconsidere o que vou dizer a seguir caso não faça sentido para você, ok? Mas uma pulguinha me pica aqui, atrás da minha orelha, ao ler o tamanho da sua certeza de que você nasceu assim. Não estou dizendo que não concordo com você, mas a menos que você tenha uma lembrança bastante clara de ter tido um pensamento relacionado a isso cinco segundos depois de ter saído de dentro da barriga da sua mãe, você não pode jurar de pé junto que nasceu gay. E, novamente: qual a diferença que isso faz? Se você nasceu assim ou ‘escolheu’ ser assim? O que muda na sua vida e no modo como você se sente com relação a si mesmo?

Cada caso é um caso e, especificamente falando sobre você, algo me incomoda aqui quando leio, na mesma frase, que você se orgulha de si, que não escolheu ser assim mas que quer saber o porquê de ser gay – e isso depois de ter perguntado se ser gay é certo ou errado. Será que na verdade não existe, aí no seu coração, uma baita de uma sensação de inadequação que apenas é calada quando você afirma para si mesmo que não escolheu ser assim? Será que não existe uma sensação de falta de lugar compensada pela afirmação de que se orgulha de si mesmo? Será que existe, dentro de você, tanta aceitação assim de quem você é?

Reflita sobre isso e questione-se, afinal de contas, por que é que saber o motivo de ser gay é tão importante para você. E lembre-se: nada é certo, nada é errado – são apenas percepções. Nada tem significado ou sentido, a não ser aqueles que você atribui às coisas. Qual o sentido que você vem atribuindo à sua sexualidade?

Namastê!

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