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Me descobri codependente. E agora?

Me descobri codependente. E agora?

P: “Recentemente, por sua indicação, comprei o livro “Codependência Nunca Mais” (autora: Melody Beattie) e… Sim, eu sou uma codependente. Tipo, uma super codependente. Até aí tudo bem, me identifiquei e percebi que em todas as minhas relações eu dançava entre a vítima e a salvadora. Mas agora me sinto vazia, pois eu só sei amar assim. O único amor que conheço é este, do cuidado, que possivelmente seja excessivo e que permeia o domínio. Sempre soube que havia algo errado comigo, mas agora estou me sentindo super perdida porque nunca vivi outra forma de amor, e acho que não saberia amar sem ser assim! E agora?”

R: Antes de mais nada, deixa eu esclarecer o que é codependência, para aquelas pessoas que não estão familiarizadas com o tema e que não sabem do que é que você está falando, rs! Codependência é um termo que foi cunhado a partir da experiência, nos Estados Unidos, dos grupos de Anônimos como Alcoólatras Anônimos (AA) e Narcóticos Anônimos (NA), e se referia, inicialmente, aos familiares dos dependentes químicos. No desenrolar deste trabalho com grupos de apoio percebeu-se que as pessoas muito próximas ligadas aos dependentes químicos possuíam uma dinâmica de comportamento muito característica… E o que é pior: uma dinâmica que favorecia a manutenção dos comportamentos de adição química. A esta dinâmica de comportamento deu-se o nome de Codependência, que acabou por transcender os casos de dependência química e, que hoje, se aplica a uma gama de processos emocionais definidos aqui através do nome de codependência emocional.

A Codependência é caracterizada por uma “dança” que ocorre entre duas pessoas, que se revezam em 3 posições bastante características, duas delas citadas aqui nesta pergunta. A primeira das posições é a vítima (no caso da dependência química, o próprio dependente). É uma pessoa supostamente frágil, fraca, que precisa de apoio e de auxílio. É a pessoa que precisa de ajuda, de salvamento, alguém que aparentemente não dá conta da própria vida sozinha. Se sairmos do campo da dependência química, a vítima pode ser uma pessoa problemática, com inúmeras questões emocionais, problemas financeiros ou de saúde… Qualquer característica que a coloque em uma posição de fragilidade desmedida.

A segunda posição é o salvador – a pessoa que se propõe a salvar a vítima de si mesma, sem para isso poupar esforços. O salvador abre mão da própria vida para cuidar da vida do outro, com a sensação absolutamente verdadeira de que se não o fizer, a vítima estará perdida para sempre. O salvador tem a sensação de que a vida da vítima depende dele, só dele, de ninguém mais além dele. O salvador se doa e não se intimida em pagar todos os preços para que experimente a sensação de que está tudo certo e de que ele está fazendo a sua parte.

Só que existe também a terceira posição: o algoz, o bandido, o sacana. E o algoz é a terceira posição na qual, de quando em quando, vítima e salvador se revezam. Se por acaso a vítima resolve cuidar da própria vida, estabelecer um limite para o salvador e dizer, “olha, agradeço a sua ajuda mas de verdade acho que devo viver a minha vida do jeito que EU acho que devo”, o salvador vira vítima e a vítima vira o bandido da história. O salvador passa então a se sentir o lixo da humanidade, um completo idiota por ter feito tanto por uma pessoa que, vejam só, não reconhece seus esforços e simplesmente não está nem aí para todo o sacrifício que ele fez para ajudá-la. A dor que o salvador sente ao ver a vítima decretando sua independência ou simplesmente não correspondendo suas expectativas é absolutamente dilacerante.

Se, por outro lado, o salvador se cansa e resolve cuidar da própria vida ao invés de ficar salvando a vítima de si mesma, ele automaticamente se transforma no bandido, no algoz, e a vítima continua, então, no papel da fragilidade humana que precisa de alguém que a salve. A dinâmica é bastante semelhante, se formos olhar de perto: nem vítima e nem salvador se responsabilizam por si mesmos. E a dança continua, ad eternum…

Dito isso e tendo ficado claro para outras pessoas do que você está falando quando diz ser a salvadora e a vítima, vamos ao que interessa. E, em primeiro lugar: não há nada de errado com você. Você nunca esteve errada em se comportar como se comportava, a única questão é que o fazia de modo inconsciente e sem saber o porquê. Hoje, você sabe. Da próxima vez em que se envolver em um relacionamento afetivo, o que antes você fazia de modo inconsciente e no piloto automático vai estar mais claro. Você tem maiores chances de se “pegar no pulo” quando conhecer uma pessoa e reconhecer esta dinâmica querendo se repetir.

Isto é desenvolvimento pessoal: des-envolvimento pressupõe um ato de deixar de estar envolvido com o que estávamos envolvidos anteriormente. Neste caso, com a posição de salvador, ou vítima. No processo de libertação da codependência (sim, porque ela aprisiona e escraviza), faz parte da brincadeira o salvador deixar que as pessoas cuidem da sua própria vida e perceber que ele também deve cuidar da sua. Faz parte aprender a respeitar processos alheios com a constatação de que existem outras formas de viver a vida que não a dele. Faz parte compreender que, por mais que muitas vezes ele enxergue o caminho a ser seguido por outra pessoa (o que, de fato, muitas vezes acontece!), faz parte do aprendizado daquela pessoa se dar conta do caminho por si só, sem ter alguém a pegá-la pela mão e direcioná-la. E faz parte do processo da vítima perceber que, ao longo da vida, vem se apoiando em outras pessoas e deixando de se responsabilizar por si mesma.

Você fala que não sabe amar de outra forma sem ser através do cuidado, e eu te digo que o cuidado faz parte, sim, do amor. Mas o que você vem chamando de amor não é nada além de fuga de si mesma, porque quando nós ajudamos o outro ganhamos status de “olha só como ela é incrível, ajudando tanto a outra pessoa, qualquer uma teria desistido há muito tempo já e blablabla” e, assim, nos sentimos menos defeituosos. Repito: não há absolutamente NADA de errado com você. Muito pelo contrário. Você é perfeita em ser como é e seus comportamentos foram adequados, porque eram orientados por crenças das quais você não tinha consciência. E “ter algo de errado” é justamente uma destas crenças, porque no fundo no fundo a grande problemática do salvador é justamente sua crença inconsciente de que há algo de errado e de estragado com ele, e por isso ele sempre precisa fazer algo para MERECER o amor dos outros. Então ele escolhe pessoas “estragadinhas”, projetando seu próprio estrago no outro e não olhando para seus lugares sombrios, e sim para os do outro. E ele escolhe pessoas que vão permitir que ele continue nesta dança eternamente, porque esta é uma dança que alimenta seu ego e sua sensação de estar “consertando” alguma coisa.

Mas tudo isso é apenas percepção. Nada além de percepção. Você não é estragada e não tem absolutamente nada de errado com você. O que estava errado, talvez, era o motivo pelo qual você agia como agia e, futuramente, nada te impede de agir do mesmo modo. Mas, agora, a dinâmica por trás dos comportamentos estão mais claras e a ignorância não te protege mais. O que se ganha, com a vinda da consciência, é o direito de escolha. Porque quando nossos comportamentos são regidos pelo inconsciente não há escolha: há piloto automático e escravidão. Apenas isso.

Seja livre, e amar será bem mais simples do que parece.
Namastê _/\_

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