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Aprendizado ou insistência em algo que não me faz bem?

Aprendizado ou insistência em algo que não me faz bem?

P: “Como saber se o que estou vivendo é algo que preciso aprender a lidar, uma espécie de relação complicada mas visando meu aprendizado nessa vida ou se estou persistindo em um relacionamento que não me tranquiliza a alma?”

R: Sua pergunta é a pergunta típica de uma mente que vive na dualidade: o que estou vivendo é uma coisa OU outra. E, veja bem, não é a sua mente que vive na dualidade, mas a mente de todos nós. Não existe uma única pessoa na face da Terra que não tenha esta como tendência: uma situação é isso ou aquilo? É uma coisa ou outra? Faço assim ou faço assado? E minha resposta, aqui, é para desestruturar esta tendência tão nossa e tão “exclusiva” – não no sentido de ser inédita, e sim no sentido de excluir, mesmo.

Mas vamos por partes. Em primeiro lugar, você não precisa nada. Ou melhor, precisa: você precisa respirar, comer, beber, dormir e fazer as suas necessidades – números 1 e 2. É disso que você precisa. Você não precisa de mais nada, todo o resto é escolha. Então, quando você diz que precisa aprender, eu te digo: você não precisa de nada. Você escolhe se quer aprender ou não. Você escolhe se quer caminhar em uma determinada direção ou não. Você escolhe se quer mudar suas atitudes ou não. É isso. Você não precisa aprender a lidar com coisa alguma, mas pode escolher ter este aprendizado. E, para escolher, você começa a fazer uso de uma delicada balancinha custo X benefício, na qual coloca o que supostamente está aprendendo neste relacionamento e o que está teoricamente “pagando” pelo aprendizado e, aí sim, escolhe se quer permanecer na situação aprendendo o que quer que seja.

Segundo: nenhuma relação visa o que quer que seja – relação é um substantivo, mas o que importa é a ação, o verbo, que é relacionar-se. Re-lacionar-se. Reescolher, escolher novamente estar em um laço, que une e vincula duas pessoas. Isto é uma relação: uma escolha repetida por permanecer atada a outra pessoa. E esta escolha não visa absolutamente nada a não ser o desfrute desta relação. Não nos relacionamos com outra finalidade a não ser experimentar a nós mesmos em determinado cenário, com determinada companhia, sentindo determinadas coisas. Não existe nenhum outro motivo para nos relacionarmos sem ser estarmos ali, experimentando a relação. Ou, ao menos, não deveria existir.

E quando digo que não deveria existir, digo por observar que muitas e muitas e muitas pessoas se relacionam por muitos e muitos e muitos motivos outros que não apenas os desfrutes de si mesmos. Por solidão. Por medo de estarem sozinhos. Porque é o que nos exige a sociedade, o sistema de crenças, nossas famílias. Porque estar em uma relação ainda é sinônimo de um determinado tipo de sucesso. Porque é o que esperam de mim. Porque romper esta relação vai fazer o outro sofrer, e se eu deixar de ser a pessoa bacaninha que estão acostumados que eu seja, vou perder o amor do outro. Porque posso estar infeliz, mas no fundo no fundo não acredito que seja merecedor de alguma outra coisa. Porque se eu terminar este relacionamento, tenho medo de que nunca mais consiga ter um outro.

Minha pergunta a você seria: por que você está neste relacionamento? Se o relacionamento é difícil, é dolorido e te traz sofrimento, por que não o encerrou ainda? E, neste momento, deixe todos os seus supostos aprendizados de lado, porque aprendizados podem ocorrer o tempo todo – estando em um relacionamento ou sozinho no alto de uma montanha. Eu quero dizer: o que, de todas as experiências que você usufrui e desfruta DENTRO deste relacionamento, acaba fazendo com que permaneça dentro dele? O que está pesando mais, nesta balancinha custo x benefício? Qual a sua motivação para permanecer reescolhendo este laço, que te vincula a esta pessoa?

Não responda para mim: responda para si mesma. Mas, se você me permite dar um conselho – e sei que se conselho fosse bom a gente vendia ao invés de dar -, se a resposta que você obtiver for “por medo”… Repense sua escolha. Se sua resposta for “por medo”, volte lá na balancinha custo x benefício, coloque o medo em um dos pratos da balança e o que supostamente você está aprendendo no outro. E simplesmente deixe que a balança penda para um dos lados. O que está valendo mais neste momento? Não enfrentar seu medo? Permanecer em uma relação que, em suas palavras, não te tranquiliza a alma? O que pesa mais?

Em sua pergunta você me propõe uma coisa OU outra, e o que espero ter conseguido mostrar nesta resposta é que não existe, necessariamente, um OU nesta equação. Pois as duas coisas podem estar acontecendo concomitantemente. Você pode estar em meio ao maior sofrimento do mundo, e estar aprendendo algo de extrema importância. E você pode resolver acabar com este sofrimento, e o aprendizado ser ainda maior. Ou você pode escolher continuar neste sofrimento, simplesmente porque o medo de enfrentar o desconhecido é muito grande – e o aprendizado ser profundo e significativo. E… Quer saber? De nenhum modo você vai estar errada. As coisas valem o que valem e pesam o que pesam e são boas e valem a pena enquanto são boas e valem a pena. E quando deixam de ser boas e de valerem a pena deixam de ser boas e de valerem a pena. Simples assim.

Por isso, a pergunta de maior relevância parece ser sempre o porquê de estar em determinada relação, as razões de continuar a escolher determinada coisa, a motivação – o motivo por trás da ação – de determinado comportamento. Porque, de um modo ou de outro, você está sempre aprendendo e está sempre fazendo o melhor que pode.

Até que, de repente, percebe que pode fazer algo melhor.
Um dia de cada vez. Um pequeno passo na direção certa sempre será um passo na direção certa.

Namastê!

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