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BLOG ♡ Refletindo sobre a amorosidade

BLOG ♡ Refletindo sobre a amorosidade

Esta semana tivemos uma reunião muito interessante sobre amorosidade e espiritualidade. Sempre que o tema é relativo a emoções, relacionamentos afetivos ou amorosos, a resposta dos participantes é bastante grande, afinal, é uma temática que inevitavelmente afeta a nós todos. Mas, a despeito do que quer que seja que possamos falar acerca de amorosidade, a primeira coisa que se faz necessária é compreender adequadamente o que é que eu entendo como amor – ou, melhor ainda, sobre amar.

No meu ponto de vista, e deve ser chover no molhado para quem já me acompanha há algum tempo, existem duas formas de vivermos a vida: ou caminhamos por aí identificados com o medo, com os riscos, com a necessidade de nos defendermos o tempo todo de todos os pseudo riscos aos quais estamos pseudo submetidos… Ou através do amor, do amar e do encantamento, fazendo escolhas pautadas na realidade que desejamos ver manifestadas em vez de baseados em tudo aquilo que NÃO desejamos experimentar. O amor é como um grande SIM que damos para o mundo, para as situações e para as pessoas que escolhemos ter em nossa realidade manifestada, e o medo é seu oposto: um grande NÃO – uma fuga, uma evitação, uma esquiva. E, chovendo no molhado mais uma vez, quando seguimos pela vida alinhados com o que NÃO queremos viver, conseguimos mais e mais situações que nos trazem aquilo que desejamos evitar; experimente comer uma salada tentando NÃO PENSAR em uma lasanha para ver o que será mais forte em sua experiência subjetiva – a salada ou a lasanha?

Portanto, se o amor é um grande SIM, amar é, na minha percepção, ACEITAR. “Eu te amo”, para mim, significa “eu te aceito, eu te permito ser quem é e como é, ainda que, em alguns momentos, você faça coisas que vão contra o que gostaria que você fizesse”. Não acredito que “amar” seja um adjetivo, “gosto tanto de você que digo que é amor”, e sim um verbo, uma ação, que implica em TRABALHO. Eu preciso FAZER algo, existe um movimento, existe algo que me move em direção ao outro – ou que me afasta do outro já que, de acordo com este ponto de vista, a forma mais verdadeira de amar alguém é estar longe deste alguém, principalmente quando estar perto significa tentar, de alguma forma, fazer com que esta pessoa mude e seja diferente do que é.

Caramba! E como é difícil colocar isto em prática – como é difícil permitir ao outro ser quem ele é. Parece muito bonitinho no plano das ideias, mas quando trazemos para a realidade cotidiana, na qual os grandes desafios acontecem, a coisa fica bem mais complicada do que imaginamos a princípio.

Como quem me acompanha por aqui deve saber, acabamos de voltar de uma temporada de 10 dias na Colômbia, comemorando o sucesso da cirurgia do Ri, nosso um ano de namoro e o dia dos namorados. E, na pequena cidade de Cartagena, onde ficamos hospedados durante os dias em que estivemos por lá, as carruagens são muito comuns e famosas. São dezenas de charretinhas ricamente adornadas, puxadas por belos cavalos, carregando turistas e mais turistas de um lado para o outro enquanto o condutor narra fatos históricos ou simplesmente casos curiosos sobre as casas e ruas da cidade.

Confesso, sem um pingo de vergonha na cara, que não conseguia ver uma carruagem passar sem fazer cara de dó para o cavalo, cara feia para o condutor e os turistas e sem fazer um comentário ressentido para o Ri: “coitado do cavalo, onde já se viu, isto é escravidão animal, cavalos puxarem charretes em mil novecentos e bolinha, quando não existiam veículos movidos a combustível vá lá… Mas hoje em dia? Poxa vida, essa turistada gordinha é que devia estar puxando a charrete”. Isto para dizer o mínimo e deixando de lado todos os palavrões que, sim, confesso, eu pensava.

Até que, em determinado momento, parei, pensei… E me senti a pessoa mais imbecil de toda a Cartagena e talvez de toda a Colômbia. A ficha caiu tamanho tampa de bueiro e fui atropelada pela percepção de que eu, e apenas eu, era a causadora do sofrimento que eu via naquele animal. Pense comigo: você acha que, para aqueles turistas, existe sofrimento animal? Duvido muito. Eles são regidos pelo sistema de crenças deles e estavam olhando para cima, fitando as belas varandas e prestando atenção aos fatos históricos. Muito provavelmente, se alguém chegasse até eles e falasse a respeito do sofrimento do pobre cavalinho, eles repetiriam, como muitas pessoas aliás dizem: “mas Deus fez os animais para servir aos homens”. Na realidade daqueles turistas simplesmente não existem animais que sofrem. E o condutor? O condutor também não enxerga sofrimento animal. A única coisa que o condutor enxerga, no cavalo, é um instrumento de trabalho e o modo através do qual ele consegue alimentar os filhos e colocar roupas em seus armários. O condutor viu o pai, o avô e o bisavô trabalharem com a mesma coisa que ele trabalha: o cavalo também não sofre naquela realidade.

E o cavalo, será que sofre em sua própria realidade? E agora vem o grande pulo do gato: como é que a gente aprende o que é doce? A gente só sabe o que é doce se souber o que é doce, ou azedo, ou amargo, ou picante ou qualquer outro sabor que exista. A gente só sabe o que é ser alegre porque sabe o que é ser triste e vice-versa! Aquele cavalo nunca havia sido livre, leve e solto, nunca galopou ululante por verdes campos, nunca bebeu água de um riacho fresquinho de água corrente. Aquilo, para ele, é a única realidade que ele conhece. O condutor nem precisava puxar a rédea para a direita ou para a esquerda, ele já conhecia o caminho. Na realidade do cavalo, duvido muito que houvesse o sofrimento que eu via.

O que nos leva ao ponto de eu ser a maior estúpida de Cartagena: nem os turistas, nem o condutor e nem o cavalo eram cúmplices na criação da MINHA realidade na qual o cavalo sofria tanto. EU era a única responsável pelo sofrimento que EU enxergava naquele animal, ninguém mais. E, apesar disso, olhei feio e amaldiçoei toda santa charrete que passou por mim. Olhei feio na direção de pessoas que não tinham absolutamente nada a ver com o pato. E, no momento em que me dei conta disso, senti uma vergonha alheia de mim mesma tão grande que até ruborizada fiquei. E, sem ter mais o que fazer a não ser assumir a responsabilidade pela realidade que eu estava experimentando, repeti o mantra: “Eu te amo, por favor me perdoe, sinto muito, sou grata”.

O mais impressionante é que, no momento seguinte, senti algo absolutamente novo pelo condutor e pelos turistas. Não vou dizer que foi amor, mas foi uma espécie de compreensão. Dentro do meu coração foi como se eu tivesse, de uma forma silenciosa e íntima, perdoado os turistas e o condutor por  seus supostos pecados – porque não existiam mais pecados. Não existia mais nada. Existiam apenas pessoas com motivos absolutamente legítimos de serem como são, com razões absolutamente honradas e genuínas de serem as pessoas que são. Posso não ter amado aquelas pessoas, mas acho que posso afirmar, com uma certa dose de segurança, que meu olhar foi mais amoroso. Porque, naquele momento, ao me responsabilizar por quem eu era e pelo que estava criando como realidade, consegui ver o outro como ele era.

Não sei o motivo pelo qual me senti inspirada a compartilhar estas reflexões aqui com vocês mas, ao me sentar para escrever a blogagem da semana, nenhum outro tema me pareceu mais propício do que este. Espero que algo do que disse aqui tenha feito sentido para vocês como fez para mim e que sejamos, cada vez mais e mais, capazes de enxergar o outro com a amorosidade e respeito que nós próprios desejamos ser tratados.

Amar ao próximo como a ti mesmo. É bem por aí.

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