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O que dizer sobre a abnegação?

O que dizer sobre a abnegação?

P: “Fui católica, evangélica e espírita, e sempre ouvi a mensagem de Jesus como “renuncie a si mesmo”. E você vem dizendo “assuma sua sombra, seu ser inteiro, não magoe a você, magoe o outro, faça o bem primeiro a você e depois ao outro”! Quando vivo o amor por mim em primeiro lugar e frustro alguém por isso, vou receber esta frustração de volta ali na frente?  Quando vivo o amor ao próximo em primeiro lugar, vou agradá-lo e me frustrar, mas receber do Universo este agrado ali na frente? Se me valorizo e coloco o outro em segundo plano e lhe causo alguma dor… Estou muito confusa! Não consigo viver sem considerar que o outro merece mais meu amor e zel0 do que eu mesma! O que dizer sobre abnegação? Por favor, me dê uma luz!”

R: Em primeiro lugar, respire fundo: este é um tema super, hiper, mega complexo e que para ser respondido adequadamente precisaria virar um livro! Então vamos tentar nos ater ao que é simples, pois é nas coisas simples que consta a sabedoria, ok? Em primeiro lugar: eu nunca disse para ninguém magoar ao outro! Você diz de ter sido católica, espírita e evangélica, religiões Cristãs que levam as considerações de Jesus como preceitos a serem seguidos. Então vamos nos lembrar de algumas frases de Jesus, que serão retomadas ao longo deste texto.

Jesus disse: “Ame ao próximo como a ti mesmo”. Ele não disse MAIS do que a ti mesmo e nem mesmo MENOS do que a ti mesmo. Ele disse COMO a ti mesmo, o que significa que nenhum amor deve ser maior do que outro. Entretanto, e devo deixar claro que esta é apenas a MINHA opinião, muitos dos ensinamentos de Jesus foram sendo perdidos ao longo do tempo, por más traduções de seus dizeres originais em aramaico e também pelo interesse das grandes Igrejas construídas pelos homens, que parecem ter se esquecido de outro dizer de Jesus: “Deus está dentro de você e ao seu redor, e não em castelos de pedra ou em mansões de madeira” – e ao contrário disso enormes construções de pedra e madeira são feitas dia após dia, com seus representantes religiosos afirmando: “É aqui que Deus mora, não se engane!”. Mas não tomarei este caminho, vamos manter o foco!

O que será que Jesus quis dizer com isso, que Deus está dentro de você e ao seu redor? Eu entendo, com isso, que ele se refere ao conceito de divindade como uma essência absolutamente amorosa e energeticamente criativa que habita todas as coisas e todas as pessoas. Fazendo um paralelo com a Medicina Chinesa, onde temos o conceito de Qi, erroneamente traduzido como “Energia” mas que, na verdade, seria muito melhor traduzido como “Sopro Vital”. Há um postulado sobre o Qi que diz: “O Qi está presente em todos os seres, preenchendo-os e envolvendo-os. É o Qi que transforma a Energia em Matéria e a Matéria em energia”. Quase parece que o que Jesus dizia era o mesmo que os primeiros filósofos chineses de 5 mil anos atrás, não? Que Deus está em todas as coisas, em mim, em você, em cada ser vivo, sendo ele um animal, vegetal ou mineral :)

Mas, voltando à abnegação e à sua pergunta: Jesus disse para amarmos ao outro como a nós mesmos, e disse também que Deus está dentro de nós e em tudo a nosso redor… E, pasme, disse também: “Vós sois deuses”. Juro, disse sim! Pode verificar, em João 10:34, citando o Salmo 82, versículo 6 (sim, eu fui atrás pra não falar bobagem por aqui). Putz, então Jesus, além de ter muito a ver com a filosofia chinesa, tem também muito a ver com meu amado mestre OSHO, outro grande Avatar (“Vou dizer uma coisa realmente inacreditável: vocês são deuses e deusas – mas se esqueceram disso”). Parece que todos os grandes Avatares do mundo dizem exatamente a mesma coisa, não? Não parece que Deus, o Universo, a Cria-Ação, o Grande Arquiteto, o Cosmo ou o que lá você quiser chamar de Deus, não está sempre enviando a mesma mensagem através de bocas diferentes, que talvez venham no melhor tempo & espaço desta nossa realidade tridimensional, falando uma língua específica para uma população específica que parece ter se perdido da grande Luz e que anda precisando de uns lembretinhos?

A confusão pode estar ficando maior, mas prometo que a partir de agora vou tentar mais resolvê-la do que piorá-la. Então Jesus disse tudo isso – e eu sou tão deus quanto você, quanto qualquer outra pessoa, e devo amar a todos exatamente da mesma forma que amo a mim mesma. E agora, eu te pergunto: quem, em nossa sociedade profundamente deturpada pelo conceito que os os homens fazem da vida, nos ensina a amar a nós mesmos? Quem é que é ensinado, em primeiro lugar, a AMAR? Quem é que se arrisca a dizer que sabe, de fato, amar alguém?

E agora vou entrar em um terreno completamente escorregadio, tentando passar a minha ideia de amor: amor é aceitação. Amor é um grande SIM diante da vida, e seu oposto é o Medo, um grande NÃO. O Amor nos abre, o Medo nos fecha. E estas são as duas grandes motivações por trás de todas as nossas atitudes. Porquê é que você agrada ao outro ao invés de agradar a si mesma? Porquê tem medo de ser punida – o Deus traduzido pela maioria das tradições cristãs é sempre tão bravo e vingativo, porquê? O que te faz agradar a si mesma antes de agradar ao outro? O desejo de ser feliz e compartilhar sua felicidade com os outros seres ou um grande “quero que tudo o mais vá para o inferno”? O que te move na direção em que você caminha? O Amor ou o Medo?

Eu entendo que tudo, neste Universo, veio de uma mesma partícula original, aquela uma que deu origem ao que os cientistas postularam de Big Bang, a grande expansão – somos todos um, viemos do mesmo lugar, de uma partícula de energia que não mais se aguentou no mesmo estado e simplesmente começou a expandir. E este Universo um dia vai se retrair, e voltar a ser aquela minúscula partícula (“Do pó viemos, ao pó voltaremos”), e para mim, Deus era aquela primeira partícula; Deus era a partícula e também a decisão de se expandir e também a própria expansão, que deu origem a tudo o que existe – a mim, a você, ao rabo do dinossauro, aos anéis de Saturno. E Deus vem experimentando a si mesmo, há tantos bilhões de anos, sob muitas formas, dentre elas eu e você. Eu sou tão Deus quanto você, e minha aceitação (amor) de quem EU sou e do que EU quero deve ser exatamente igual a aceitação (amor) de quem VOCÊ é e do que VOCÊ quer. Eu sou tão sagrada quanto você, sou tão merecedora deste amor-aceitação quanto você, e estou neste mundo para reconhecer inúmeras partes do meu Eu-Divino-Original nas outras pessoas – os outros são apenas espelhos, que me apontam o Divino que habita em mim. Por isso eu digo Namastê – Namastê significa que o Divino que habita em mim saúda e reconhece o Divino que existe em você.

Eu entendo que estamos neste plano manifestado da dualidade eu x outro para aprendermos a nos reconhecer como Divinos e nos reconectarmos, amando e aceitando todas as coisas, respeitando todas as coisas e formas de vida (um dos motivos de eu não comer carne) e permitindo que cada um seja o que é. Assumindo responsabilidade sobre mim mesma, sobre meus desejos e minha própria vida, sem julgar ou criticar o que o outro faz (como posso amar o outro e julgá-lo e criticá-lo ao mesmo tempo? Isso, para mim, não é o amor que Jesus postulava!). O problema é o que se entende por amor. O problema é que se confunde amor com posse, com ego, com doença. E é por estar doente que a sociedade se esqueceu de tantas coisas importantes que Jesus, o Cristo (que significa “o Iluminado”, em aramaico, do mesmo jeito que Buda) disse, há tantos anos.

Voltando, novamente à abnegação: quando falamos de abnegação e pensamos, por exemplo, em Madre Tereza (talvez a maior representante do termo), será que Madre Tereza TINHA O DESEJO de estar fazendo qualquer outra coisa além do que fazia? Será que ela não estava tendo prazer ao fazer tanta caridade? O que será que a movia, o amor ou o medo de ser punida por um deus esquisito, contraditório e bravo, se por acaso não tirasse da própria boca para dar ao outro? Mais uma vez, o que te move na direção em que você caminha? Esta, sim, deveria ser a verdadeira pergunta – de fato esta é a ÚNICA pergunta.

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